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Reportagem Especial: a rota do manganês ilegal
Por Redação
Enquanto um empreendimento formal de mineração e industrialização de manganês permanece sem operar há mais de dois anos à espera do licenciamento ambiental, uma estrutura clandestina retira minério da Serra do Sereno e consegue transportá-lo por centenas de quilômetros até o terminal portuário em Barcarena para exportação.
O Minera Brasil teve acesso à denúncia enviada às autoridades e ouviu fontes que conhecem os meandros da extração e comercialização ilegal de manganês no sudeste do Pará, que pediram para não ter seus nomes revelados por temor de represálias.
Os relatos obtidos pela reportagem descrevem uma cadeia organizada em diferentes etapas: extração, transporte rodoviário, financiamento do esquema, obtenção de documentação para esquentar o minério, facilitação de entrada no terminal, armazenamento e contratação de navios para exportação.
Essa engrenagem funciona por meio de empresas de fachada e corrupção de agentes públicos. Ela sobreviveu a operações recentes da Polícia Federal na região e foi sofisticando sua operação a cada batida policial.

Área de extração ilegal de manganês na Serra do Sereno- foto: Antônio Ferreira
O novo capítulo dessa história chama atenção também pelo volume envolvido. Segundo a denúncia, um novo embarque de 55 mil toneladas de manganês, avaliado em R$ 30 milhões, está previsto para os próximos dias no Porto de Vila do Conde, em Barcarena. O navio que vai levar a suposta carga de manganês ilegal, de acordo com a denúncia, é o Ning Feng, de bandeira das Ilhas Marshall, que já está fundeado próximo ao porto aguardando autorização para atracar e fazer o carregamento do minério.
A denúncia pede às autoridades que investiguem a origem do minério para comprovar que ele foi retirado de forma ilegal e adotem medidas para impedir o embarque no navio. Essa denúncia reacende uma questão: como um esquema de extração e comercialização ilegal de manganês consegue sobreviver a sucessivas investigações e operações policiais e continuar avançando por uma cadeia logística capaz de levar o minério do interior do Pará até a região portuária?
O que chama atenção desse embarque é que até o dia 6 de agosto, a Line Up, documento que reúne em tempo real o status de cada navio programado para o porto de Barcarena, constava que a responsável pelo minério avaliado em R$ 30 milhões era a empresa Mas Trading. Já no dia 10 de agosto, o dono da carga virou a empresa Buritama, que está em processo de falência. A denúncia aponta que a mudança foi apenas para ocultar o verdadeiro dono do minério, a Mas Trading.
COMO O MINÉRIO ILEGAL VAI PARAR NO PORTO DE BARCARENA?
A denúncia aponta que o manganês é retirado ilegalmente da Serra do Sereno, em Curionópolis, sem os controles ambientais, trabalhistas e de segurança exigidos de uma operação mineral regular, por um grupo comandado por Sidney Carlos Ostermann, conhecido como “Macarrão”; João Euclides Viana Porto, vulgo “Joãozão”; e João Paulo Bulção Santos, apelidado de “Paraíba”. Esse grupo mantém relações com atores políticos da região.

Alexandre Masoller Borges é o dono da Mas Trading, que seria a verdadeira dona das 55 mil toneladas, avaliadas em R$ 30 milhões, que estão prestes a ser embarcadas no porto de Barcarena.
Na etapa seguinte aparece novamente um nome que já está no centro das investigações sobre o manganês ilegal: Alexandre Masoller Borges, que também é o dono da Mas Trading.
A denúncia encaminhada às autoridades aponta Masoller como o cabeça do esquema. Ele seria responsável pelo financiamento, transporte e comercialização do minério. Quatro inquéritos na Polícia Federal do Pará apuram sua participação no esquema. Em junho de 2025, o Minera Brasil revelou que fontes com acesso às investigações dizem que Masoller é o coordenador da estrutura de extração ilegal de manganês no sudoeste do Pará.
A MR Mining, uma de suas empresas, havia entrado no radar das autoridades depois de ser citada em inquérito instaurado a pedido da Receita Federal. O Minera Brasil mostrou que a sede da empresa em Goiânia era de fachada. A empresa nunca funcionou no endereço informado.
Meses depois Masoller voltaria ao centro das investigações.
Em janeiro deste ano, a Polícia Federal deflagrou a Operação Nêmesis, destinada a combater crimes ambientais e a usurpação de bens minerais da União. A investigação apurava um esquema de extração e comercialização ilegal de manganês no Pará destinado ao mercado internacional, especialmente à China.
A operação cumpriu mandados de busca e apreensão e de prisão preventiva em cidades do Pará, Goiás e Minas Gerais. Foram apreendidos helicóptero, veículos, joias e outros bens, e a Justiça determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 24 milhões dos investigados. Alexandre Masoller estava entre os alvos da PF, mas conseguiu fugir do cerco policial.
A Nêmesis era, por sua vez, desdobramento das operações Dolos I e II, realizadas em 2024 contra a extração e comércio de manganês extraído ilegalmente.

Caminhões da Transmasoller Ltda, utilizados no transporte do minério ilegal da Serra do Sereno em direção a Barcarena.
A TRANSPORTADORA DE MASSOLER
De acordo com a denúncia, cerca de 15 caminhões da Transmasoller Ltda. estariam sendo utilizados no transporte do minério ilegal da Serra do Sereno em direção a Barcarena. A empresa tem sede em Parauapebas e possui vínculos societários com Alexandre Masoller Borges e com a GM Holding Sociedade Ltda.
É nesse percurso que surge uma das acusações mais graves. Fontes afirmam que, em determinados pontos da rota, haveria pagamentos de propina a agentes públicos para permitir a passagem das cargas de minério ilegal. Segundo esses relatos, policiais que deveriam fiscalizar e apreender o minério ilegal fariam “acertos” para ignorar a movimentação dos caminhões pela PA-150. O ponto do “acerto” é o 16 entroncamento da PA-150 que dá acesso à estrada de Serra Pelada.
COMO SE “ESQUENTA A CARGA”
Segundo a denúncia, o minério extraído na Serra do Sereno – nas áreas da RMB, que aguarda há mais de dois anos o licenciamento do seu empreendimento de verticalização da produção de manganês no estado pela Secretaria do Meio Ambiente – estaria sendo “esquentado” com notas frias atribuídas à Delta Mineração, no Tocantins e a Ceman, de Alto Horizonte, em Goiás. As duas empresas possuem autorizações para extração de manganês, e estariam fornecendo notas fiscais para que o grupo liderado por Masoller driblasse as autoridades.
O ESQUEMA EM BARCARENA
Depois de atravessar o Pará por rodovia, com notas frias, o manganês retirado ilegalmente do Sereno chega a Barcarena, um dos principais corredores de exportação mineral do país.
A denúncia afirma que o minério seria recebido em instalação operada pela Norte Empreendimentos e que a empresa teria conhecimento da origem clandestina do manganês. A denúncia aponta ainda o envolvimento de funcionários do porto que receberiam propina para fazer “vista grossa” no embarque do minério, que ao ser extraído ilegalmente deixa um rastro de devastação no meio ambiente.
A questão que as autoridades precisam esclarecer é se os responsáveis pela recepção, armazenamento e movimentação têm conhecimento de eventual irregularidade na origem ou na documentação do manganês.

Galpão onde o minério ilegal é supostamente estocado antes do embarque
O que dizem os citados nesta reportagem
O Minera Brasil questionou a CDP, responsável pelo porto em Barcarena, quem era o verdadeiro dono da carga de 55 mil toneladas, quais eram os critérios para a conferência da origem da carga e se teria conhecimento do envolvimento de funcionários do esquema. Não obtivemos resposta. Procurada, a Norte Empreendimentos não se pronunciou. A Buritama também foi procurada, mas não retornou.
Apontado como cabeça do esquema, Masoller não foi encontrado. A Delta e Cemam também não responderam ao contato da reportagem. O espaço segue aberto para manifestação dos citados nesta reportagem. Fonte da Polícia Federal disse que o efetivo está desfalcado em Marabá, e que as investigações tendem a avançar com a chegada de novos policiais na região. O reforço deve chegar após as eleições.

Extração ilegal de manganês provoca danos ao meio ambiente irreparáveis
UM EMPREENDIMENTO À ESPERA DE LICENCIAMENTO
Na mesma região onde o minério é extraído ilegalmente está o Projeto Sereno, da Recursos Minerais do Brasil (RMB), concebido para estabelecer uma cadeia formal de mineração e industrialização de manganês no Pará.
Em agosto de 2025, foram realizadas audiências públicas em Curionópolis e Marabá, promovidas pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Pará (Semas), dentro do processo de licenciamento.
O projeto prevê aproximadamente R$ 240 milhões de investimentos nos primeiros cinco anos e propõe não apenas extrair manganês, mas também beneficiá-lo no próprio Pará, produzindo insumos destinados à siderurgia, fertilizantes, nutrição animal e à cadeia de baterias.
De um lado, um empreendimento formal apresenta estudos ambientais, participa de audiências públicas, submete-se à fiscalização e espera autorização para produzir. Do outro, denúncias sucessivas descrevem uma estrutura clandestina que seria capaz de extrair manganês, colocá-lo em caminhões, atravessar o Pará, chegar a um terminal portuário e alcançar navios destinados ao mercado internacional.
Como uma cadeia investigada há anos consegue retirar minério, atravessar centenas de quilômetros, acessar estruturas portuárias e chegar ao mercado internacional mesmo depois de sucessivas operações policiais?
Essa é a pergunta que as autoridades precisam responder.













