Por Redação
A australiana Lynas Rare Earths fechou acordo para comprar 100% da Meteoric Resources, dona do projeto de terras raras Caldeira, no sul de Minas Gerais. A operação está avaliada em cerca de R$ 3.5 bilhões. A conclusão do negócio, porém, depende de uma série de aprovações, entre elas a autorização prevista no novo regime brasileiro de controle sobre ativos de minerais críticos e estratégicos.
A transação deverá ser um dos primeiros grandes testes do modelo criado recentemente pelo governo brasileiro para acompanhar mudanças de controle de empresas detentoras de direitos minerários considerados estratégicos.
O acordo entre as duas companhias australianas coloca o Brasil definitivamente como player nas cadeias globais de materiais essenciais para novas tecnologias; e ameaça o domínio chines no processamento e refino de terras raras, que chega a quase 90% e o controle de uma cadeia vital para veículos elétricos, eletrônicos e equipamentos de defesa.
A operação foi anunciada como aquisição de 100% da Meteoric pela Lynas, integralmente em ações, por aproximadamente A$ 968 milhões, cerca de R$ 3.5 bilhões. Os acionistas da Meteoric deverão receber 0,0207 ação da Lynas por ação e, concluída a operação, deter aproximadamente 5,9% da Lynas.
O valor representa um prêmio de 68,4% sobre o último preço de fechamento das ações da Meteoric antes do anúncio. A Lynas também concordou em disponibilizar até A$ 110 milhões em financiamento para que a Meteoric continue desenvolvendo Caldeira enquanto a aquisição passa pelas etapas de aprovação. Uma primeira parcela de A$ 35 milhões será liberada após a assinatura do acordo.
O Minera Brasil apurou que o governo brasileiro estava sendo informado sobre a negociação e deu sinal verde para o acordo, que deve ser aprovado pelo Conselho criado para avaliar operações societárias envolvendo ativos estratégicos para o país. A expertise da Lynas em refino chamou atenção do BNDES que avalia entrar no negócio.
Com essa transação a Lynas não está comprando simplesmente um ativo mineral. Caldeira faz parte da estratégia de crescimento e diversificação de uma das principais produtoras de terras raras fora da China que busca fontes de suprimentos mais diversificadas e confiáveis.
Para a Lynas, a incorporação do Projeto Caldeira resulta em um aumento de 79% em seus recursos minerais existentes e de 26% em suas reservas de minério.
Processamento no Brasil entra no radar
Além da transferência de controle, a aquisição coloca no centro da discussão não apenas o destino da produção de Caldeira; mas o grau de processamento que poderá ser realizado no Brasil.
A nova política brasileira para minerais críticos e estratégicos tem entre seus objetivos ampliar o beneficiamento e a transformação desses recursos no território nacional. Nesse contexto, a entrada da Lynas, uma das principais empresas globais do setor e com experiência em etapas avançadas de processamento e refino, adiciona uma dimensão de agregação de valor ao negócio.
A Lynas opera a mina de Mt Weld, na Austrália, instalações de processamento no país e uma unidade de separação de terras raras na Malásia. A companhia é atualmente a única produtora comercial, fora da China, de óxidos separados de terras raras leves e pesadas.
No comunicado sobre a operação, Lynas afirma que o minério de Caldeira poderá ser integrado às suas operações downstream já existentes na Malásia. Ao mesmo tempo, informou que estudará a possibilidade de realizar processamento adicional no Brasil.
Embora não tenha anunciado a construção de uma planta de separação no país. Já existe conversas nesse sentido com o governo brasileiro, que inclui participação do BNDES na planta de refino.
Fontes do governo, afirmam que uma eventual planta de refino no Brasil é um trunfo do presidente Lula, que busca desenvolver internamente segmentos considerados estratégicos da indústria de minerais críticos, no contexto da política industrial do país.
Caldeira tem recurso de 1,6 bilhão de toneladas
Localizado em Minas Gerais, o projeto Caldeira é considerado o maior recurso conhecido de terras raras em argilas iônicas fora da China. O projeto possui recurso mineral estimado em 1,631 bilhão de toneladas, com teor médio de 2.317 partes por milhão (ppm) de óxidos totais de terras raras (TREO). A reserva mineral é estimada em aproximadamente 151 milhões de toneladas, com teor médio de 3.524 ppm.

Área do projeto na região da caldeira vulcânica de Poços de Caldas. Foto: Reprodução.
Dentro dos recursos identificados, a Meteoric estima cerca de 802 mil toneladas de óxidos de neodímio e praseodímio (NdPr) e 41 mil toneladas de disprósio e térbio (DyTb). Os elementos são utilizados principalmente na produção de ímãs permanentes de alto desempenho, empregados em setores como veículos elétricos, geração de energia e equipamentos industriais.
O estudo definitivo de viabilidade divulgado em julho prevê investimento inicial de aproximadamente US$ 498 milhões e uma vida útil de 23 anos para o projeto.
A produção média projetada é de 12,5 mil toneladas anuais de TREO, incluindo aproximadamente 3.862 toneladas de NdPr e 127 toneladas de DyTb por ano. O projeto também prevê a produção de samário, gadolínio e ítrio.
Caldeira já recebeu licença ambiental preliminar, e a Meteoric informou que buscava obter a licença de instalação ainda em 2026.
Conclusão prevista para março de 2027
Pelo cronograma divulgado pelas companhias, os documentos da operação devem ser enviados aos acionistas em dezembro. A assembleia para votar a aquisição está prevista para janeiro de 2027.
O Conselho de Administração da Meteoric recomendou unanimemente que os acionistas votem a favor da transação, na ausência de uma proposta superior e sujeito à conclusão do especialista independente de que atransação atende aos melhores interesses dos acionistas da Meteoric.
Se forem obtidas as aprovações societárias e regulatórias necessárias, incluindo a autorização brasileira, a expectativa das empresas é concluir a aquisição até março de 2027.
A operação, portanto, combina dois movimentos estratégicos: a entrada da Lynas em um dos maiores projetos de terras raras em argilas iônicas fora da China e a estreia, na prática, do novo mecanismo brasileiro de controle sobre mudanças de comando em ativos considerados críticos ou estratégicos no país.














