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Por Redação
O Brasil vive uma janela de oportunidade para ampliar sua participação no mercado global de minerais críticos, mas precisa acelerar investimentos, fortalecer órgãos públicos e criar mecanismos de financiamento para projetos de mineração e processamento. A avaliação foi feita por empresários e especialistas durante o painel “A corrida pelos minerais críticos usados em tecnologia e energia limpa”, realizado no Fórum Estadão New Mining | Minério Verde.
A dependência mundial da China no processamento desses minerais, a expansão da demanda provocada por tecnologias de transição energética e a velocidade de implantação de novos projetos colocam o Brasil diante de uma disputa que, segundo os participantes, exige decisões rápidas. Ao mesmo tempo, o setor reconhece desafios relacionados a licenciamento, financiamento, pesquisa mineral e desenvolvimento de etapas industriais além da mineração.
Janela de oportunidade é considerada curta
Frederico Bedran, diretor executivo da Associação de Minerais Críticos (AMC), afirmou que mais de 30 empresas integram atualmente a entidade, com atuação em segmentos como lítio, níquel, cobre e terras raras. Segundo ele, as companhias associadas projetam cerca de R$ 60 bilhões em investimentos nos próximos anos.
Para Bedran, o potencial econômico precisa ser analisado também sob uma perspectiva estratégica. Ele destacou que minerais críticos estão relacionados a setores como indústria automotiva, robótica e defesa, em um momento de reorganização das cadeias produtivas globais.
“A janela de mercado, ela é muito curta. O Brasil tem que saber bem aproveitar essa janela de mercado.”

O diretor executivo da Associação de Minerais Críticos (AMC), defende que o Brasil aproveite a atual janela de oportunidade e amplie os investimentos no setor. Foto: Estadão / Reprodução.
Na avaliação do executivo, projetos estão sendo desenvolvidos em diferentes países e quem conseguir colocá-los em operação primeiro terá vantagem na disputa por esse mercado.
Bedran também defendeu que o Brasil não concentre sua política apenas na extração mineral. Para ele, é necessário desenvolver toda a cadeia produtiva e ampliar o número de empresas nacionais atuando no segmento.
“Quando a gente fala de minerais críticos, nós estamos falando da cadeia de minerais críticos como um todo, não somente de mineração”, afirmou.
Dependência da China desafia novos projetos
Vinicius Alvarenga, CEO da Companhia Brasileira de Lítio (CBL), afirmou que a dependência da China deverá continuar por muitos anos, especialmente nas etapas de processamento dos minerais críticos.
Segundo Alvarenga, atualmente não há outra refinaria de lítio em construção fora da China, enquanto a CBL mantém uma das poucas operações existentes fora do país asiático. Para ele, o cenário mostra a dificuldade de criar uma cadeia produtiva alternativa.
“O mundo dos minerais críticos vai seguir o mundo chinês por muito tempo e a gente tem que conviver com isso, quer dizer, é uma realidade.”
O executivo afirmou, porém, que o Brasil apresenta condições competitivas para ampliar sua atuação no processamento. Entre os fatores citados estão a disponibilidade de energia renovável, custos de mão de obra e uma cadeia de fornecedores já estabelecida.
O principal obstáculo, segundo ele, é enfrentar a capacidade produtiva construída pela China, especialmente nas etapas intermediárias da cadeia.
“Como que os países vão fazer políticas para quebrar essa situação que afasta investidores privados? É um fato.”
Alvarenga defendeu que o Brasil avance simultaneamente na mineração e no processamento dos minerais. Na sua avaliação, a extração já representa uma atividade de alto valor agregado e não deve ser tratada como incompatível com a industrialização posterior.
“A gente tem que fazer os dois.”
Processamento exige políticas de Estado
O chamado midstream, que reúne as atividades entre a extração e a fabricação de produtos finais, foi apontado como um dos principais desafios para o Brasil.
Alvarenga afirmou que a China domina grande parte dessas etapas e que os demais países estão atrasados em relação ao desenvolvimento desse ecossistema industrial.
“O midstream, para desenvolver isso, vai exigir soluções muito mais complexas, caras e difíceis do que a própria mineração”, disse.

Vinicius Alvarenga, CEO da Companhia Brasileira de Lítio (CBL), afirma que a dependência mundial da China no processamento de minerais críticos deve permanecer por muitos anos. Foto: Estadão / Reprodução.
Na avaliação do CEO da CBL, a competição econômica direta com a indústria chinesa não seria suficiente para atrair investimentos privados para essas etapas. Por isso, políticas públicas seriam necessárias para reduzir os riscos e estimular a diversificação das cadeias produtivas.
“É lindo que o mundo todo fala de uma cadeia China Free, mas não tem ninguém pagando ou investindo para isso.”
Setor cobra financiamento e pesquisa
Um dos principais pontos defendidos pelos participantes foi a criação de mecanismos que facilitem o financiamento de projetos de pequeno e médio porte.
Alvarenga citou o fundo garantidor previsto nas discussões sobre uma nova política para minerais críticos como uma medida potencialmente transformadora. Segundo ele, empresas do setor encontram dificuldades para oferecer garantias exigidas por instituições financeiras porque seus principais ativos são os próprios recursos minerais ainda em desenvolvimento.
O executivo também defendeu incentivos para a pesquisa mineral, argumentando que o Brasil investe menos em exploração do que grandes países mineradores.
Tito Martins, consultor sênior e conselheiro de empresas, ampliou a crítica e afirmou que o principal problema brasileiro é a demora para transformar propostas em medidas concretas.
“O que precisa ser feito no Brasil, especificamente com respeito à mineração, é ação. Só. Fala-se demais, dá-se palpite demais.”

Tito Martins, consultor sênior e conselheiro de empresas, cobra ações do poder público para fortalecer a mineração, ampliar investimentos e acelerar processos regulatórios. Foto: Estadão / Reprodução.
Martins citou como exemplo um fundo de financiamento apresentado em 2024 e que, segundo ele, ainda não havia liberado recursos até agosto de 2026.
Para o consultor, o fortalecimento da Agência Nacional de Mineração (ANM), do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) e de outros órgãos públicos ligados ao setor é necessário para destravar investimentos e ampliar a pesquisa mineral.
Licenciamento: setor pede mais agilidade, não menos exigências
A simplificação e a previsibilidade dos processos regulatórios também apareceram entre as principais reivindicações.
Os participantes ressaltaram que o problema, segundo eles, não está necessariamente nas exigências ambientais ou sociais, mas no tempo necessário para que os processos avancem entre os diferentes órgãos públicos.
“A gente advoga que a gente tenha processos mais ágeis”, afirmou Alvarenga.
A defesa foi reforçada por Bedran, que apontou a necessidade de regras mais claras, maior interação entre órgãos e redução do tempo de tramitação.
“Não que o mérito das questões, as exigências não sejam analisadas de forma nenhuma. Mas que sejam com regras mais claras, menos imprevisíveis, e com fluxo mais rápido e maior interação entre as agências.”
Martins também defendeu o fortalecimento dos órgãos ambientais e de fiscalização. Para ele, instituições mais estruturadas poderiam aumentar a eficiência do próprio processo regulatório sem necessariamente reduzir o controle sobre os projetos.
“É importante um Estado bem organizado.”
Setor vê ciclo favorável nas próximas décadas
Apesar dos obstáculos, Tito Martins avaliou que o mercado global de mineração atravessa um ciclo positivo, impulsionado pela demanda tecnológica e pela reindustrialização de diferentes países.
“Eu acho que a gente está num ciclo bastante interessante.”
O consultor afirmou que a demanda por minerais deve permanecer forte nas próximas duas décadas e defendeu maior reconhecimento social da importância da mineração para o desenvolvimento de novas tecnologias.
A disputa por minerais críticos, portanto, não se resume à existência de reservas. Para os participantes do painel, a capacidade de transformar recursos em projetos competitivos, financiar empreendimentos, desenvolver processamento e dar previsibilidade aos investimentos será determinante para definir o espaço que o Brasil ocupará na nova cadeia global.
Bedran resumiu a dimensão estratégica do desafio ao defender que o País não deve se limitar aos poucos grandes protagonistas atuais.
“A gente tem que ter 10 CBMMs, esse é o caráter estratégico que o segmento de minerais críticos permite para o Brasil”, disse.
A referência à Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), líder mundial em nióbio, foi usada para defender a criação de uma base mais ampla de empresas nacionais de minerais críticos. Para os participantes, ampliar essa diversidade é parte central da estratégia brasileira para aproveitar a atual janela de oportunidade.
O Fórum Estadão New Mining | Minério Verde foi realizado nesta quinta-feira, 20 de agosto, no Espaço JK Eventos, em São Paulo. Promovido pelo Estadão, em parceria com o Estadão Blue Studio, o encontro reuniu representantes do setor para discutir os desafios e as oportunidades da transformação da mineração brasileira, com debates sobre tecnologia, inovação, sustentabilidade e competitividade. O evento teve patrocínio da Cedro Mineração.












