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Por Redação
Estados Unidos e Japão avançam na elaboração de um projeto para explorar jazidas de terras raras no fundo do oceano próximas à ilha japonesa de Minamitorishima, no Pacífico. Os depósitos, localizados a cerca de 6 quilômetros de profundidade, estão entre os mais profundos já considerados para exploração comercial e podem conter mais de 16 milhões de toneladas de minerais estratégicos. Informações segundo o portal Mining.com.
A iniciativa ganhou impulso após o encontro entre o presidente americano, Donald Trump, e a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, em março, na Casa Branca. Os dois governos assinaram um memorando de entendimento sobre mineração em águas profundas e passaram a discutir formas de desenvolver os recursos de Minamitorishima.
A área marítima próxima à ilha concentra grandes quantidades de terras raras pesadas, entre elas ítrio, gadolínio, disprósio e térbio. Esses elementos são utilizados na fabricação de semicondutores, telas de LED, motores de veículos elétricos e sistemas de orientação de mísseis.
Resultados de amostras coletadas por navios japoneses indicaram concentrações significativas desses minerais. Estudos liderados por pesquisadores da Universidade de Tóquio estimaram, em 2018, que os sedimentos no fundo do mar ao sul de Minamitorishima continham mais de 16 milhões de toneladas de terras raras.
O potencial da jazida é considerado excepcional. Segundo as estimativas dos pesquisadores, somente o volume de ítrio poderia equivaler a cerca de 780 anos da demanda mundial pelo elemento.
“Minamitorishima é um projeto ambicioso, mas que poderia permitir que Japão e Estados Unidos tenham uma cadeia de fornecimento de terras raras totalmente integrada, da mineração à produção de ímãs, ajudando a reduzir a influência da China sobre os dois países”, afirmou William Chou, pesquisador sênior do Hudson Institute.
China amplia presença na região
O interesse japonês ocorre em meio ao aumento da atividade chinesa nas proximidades de Minamitorishima. Navios de pesquisa oceanográfica de Pequim realizaram levantamentos do fundo do mar em áreas próximas à zona econômica exclusiva japonesa, segundo análise de dados de rastreamento marítimo.
A zona econômica exclusiva se estende por até 200 milhas náuticas a partir do litoral e garante ao país direitos exclusivos de exploração econômica dos recursos naturais.
Em junho de 2025, um porta-aviões chinês entrou na zona econômica exclusiva de Minamitorishima. Embora a passagem tenha sido breve e não tenha violado o direito internacional, o episódio provocou preocupação em Tóquio.
“Foi quase como se alguém estivesse apontando uma lâmina para nós”, disse Shoichi Ishii, diretor do programa de terras raras de Minamitorishima no Gabinete do Japão.
Questionado sobre as atividades chinesas, o Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que as pesquisas marítimas do país “servem a propósitos pacíficos e cumprem rigorosamente as disposições pertinentes do direito internacional”. Segundo Pequim, os navios de guerra chineses também atuam de acordo com o direito internacional e as práticas internacionais.
Projeto pode custar bilhões e levar mais de uma década
Apesar do potencial, a exploração enfrenta obstáculos técnicos, ambientais e econômicos. A profundidade de aproximadamente 6 quilômetros é muito superior à alcançada pela maioria dos projetos de exploração de petróleo em alto-mar.
A pressão da água no local é estimada em cerca de 600 vezes a pressão existente ao nível do mar. Também existem incertezas sobre os impactos que uma atividade de mineração em larga escala poderia provocar nos ecossistemas das profundezas oceânicas.
Uma estimativa do setor privado indica que o projeto poderia exigir bilhões de dólares e mais de uma década de investimentos. O custo de produção das terras raras poderia chegar a aproximadamente três vezes o valor da extração em minas terrestres na China.
Ainda assim, pesquisadores japoneses consideram que os obstáculos técnicos podem ser superados.
“Não existem grandes obstáculos técnicos”, afirmou Kentaro Nakamura, professor da Universidade de Tóquio. Para ele, testes realizados até agora indicam que a profundidade dos depósitos não representa uma barreira significativa. “É uma questão de vontade política e do desafio imposto pela China.”
Empresas americanas estudam participação
O Japão vem conduzindo sozinho os trabalhos de exploração, aproveitando sua experiência em operações em águas profundas. Empresas norte-americanas com conhecimento em perfuração de petróleo e gás, entretanto, podem participar de futuras etapas do projeto.
Entre as companhias que demonstraram interesse está a Deep Reach Technology, de Houston. Segundo Jim Wodehouse, vice-presidente de projetos da empresa, representantes da companhia já realizaram reuniões iniciais com autoridades japonesas.
“Sou favorável às pesquisas na zona econômica exclusiva de Minamitorishima”, disse Wodehouse. “As terras raras são muito ricas e incluem elementos pesados importantes, além de apresentarem baixos níveis de radioatividade.”
A empresa já trabalha em outro projeto relacionado à extração de nódulos polimetálicos na região. A Deep Reach possui patentes nos Estados Unidos e no Japão para tecnologias que podem ser aplicadas à mineração do fundo do mar.
Dependência da China impulsiona aproximação
A busca por alternativas ganhou urgência depois que Pequim restringiu exportações de terras raras para Estados Unidos e Japão. A China domina cerca de 90% do fornecimento mundial desses minerais e utiliza sua posição estratégica como instrumento de pressão econômica.
No caso japonês, as restrições também atingiram elementos fundamentais para a fabricação de ímãs de alto desempenho. As exportações chinesas de disprósio e térbio para o Japão permanecem zeradas desde o início do ano.
Takaichi transformou a redução da dependência chinesa em uma das prioridades de sua política econômica e de segurança nacional. Antes de assumir o cargo de primeira-ministra, ela ocupou por dois anos a posição de ministra responsável pela segurança econômica.
Durante um discurso de campanha eleitoral neste ano, Takaichi destacou sua participação no avanço do projeto.
“Isso significa que o Japão não precisará se preocupar em garantir terras raras — nem para a nossa geração, nem para a próxima”, afirmou.
A estratégia japonesa prevê aproximadamente US$ 5,7 bilhões em investimentos públicos e privados até 2040 para o desenvolvimento de recursos em águas profundas, incluindo Minamitorishima.
Ilha remota ganha importância militar
Minamitorishima é uma pequena ilha japonesa localizada a mais de 1.600 quilômetros a sudeste de Tóquio. O território, praticamente plano, possui uma estação meteorológica e uma pista de pouso.
A área é de acesso restrito. O abastecimento é feito por um voo semanal de transporte militar C-130, que leva suprimentos e funcionários responsáveis pela estação meteorológica e pela manutenção da pista.
A ilha também apresenta condições peculiares. Segundo Masahito Tanaka, ex-comandante do destacamento militar local, equipes precisam lidar com grandes concentrações de aves migratórias e com caracóis gigantes que aparecem após períodos de chuva e podem carregar parasitas.
Apesar do isolamento, a importância estratégica da região aumentou. Em junho, um lançador de mísseis antinavio Type 12, um sistema de guerra eletrônica e um drone Scan Eagle II foram enviados para Minamitorishima para exercícios militares.
O Japão também avalia a instalação de novos radares, a ampliação da pista de pouso e a construção de instalações portuárias para reforçar o monitoramento de navios e aeronaves chineses e russos.
Teste em larga escala está previsto para 2027
O Japão planeja realizar em fevereiro de 2027 um teste de mineração em escala integral com duração de aproximadamente um mês. A operação deverá incluir etapas de refino e fundição.
O objetivo é concluir, no ano seguinte, uma avaliação sobre a viabilidade de comercializar terras raras produzidas domesticamente.
Pesquisadores estimam que um sistema de bombas semelhante aos utilizados na exploração de petróleo em águas profundas poderia retirar cerca de 3.500 toneladas de sedimentos por dia. Ainda não existe, porém, consenso sobre o método mais eficiente para separar os minerais do material extraído.
Se o projeto for bem-sucedido, Minamitorishima poderá se tornar a primeira mina de terras raras do Japão e permitir que o país controle praticamente toda a cadeia de produção de ímãs — da extração dos minerais ao produto final.
Uma aposta contra a influência de Pequim
Mesmo dentro do governo japonês, há reconhecimento de que a operação comercial não deverá começar durante o atual mandato presidencial de Trump. O longo prazo do projeto levanta dúvidas sobre a continuidade do apoio americano.
Ainda assim, Washington tem interesse estratégico na iniciativa. Além de buscar novas fontes de terras raras para suas indústrias, os Estados Unidos veem a mineração submarina como uma alternativa para reduzir a dependência de Pequim.
Para os defensores do projeto, a iniciativa tem importância que vai além da viabilidade econômica.
“É possível argumentar que o entusiasmo americano por Minamitorishima também faz parte da estratégia de dissuadir a China e mostrar a eles: ‘Não dependemos inteiramente de vocês. Também temos opções’”, afirmou Chou.
A disputa em torno da pequena ilha japonesa, portanto, já ultrapassa os limites da exploração mineral. No fundo do Pacífico, a corrida pelas terras raras se transforma em mais um capítulo da competição estratégica entre Estados Unidos, Japão e China.













