Por Ricardo Lima
A sustentabilidade deixou de ser uma agenda paralela para se tornar parte da estratégia de negócio da Vale, segundo Grazielle Parenti, vice-presidente executiva de sustentabilidade da mineradora.
Em entrevista ao programa Mapa da Mina, da CNN, na quarta-feira (23), a executiva afirmou que a pressão ambiental sobre a indústria aumentou e que práticas antes tratadas como voluntárias passaram a ser necessárias para manter a chamada “licença social” para operar. “A gente não tem uma estratégia de sustentabilidade, a gente tem a estratégia do negócio da Vale, e a sustentabilidade está dentro do negócio”, disse.
Descarbonização como vantagem competitiva
A mudança também aparece na estratégia de descarbonização. A Vale estabeleceu meta de reduzir em 33% as emissões dos escopos 1 e 2 até 2030 e, segundo Parenti, já investiu US$ 1,7 bilhão em iniciativas como eficiência energética, uso de etanol e biodiesel e eletrificação de operações. A empresa também estabeleceu uma meta de redução de 15% no escopo 3, que abrange a cadeia de valor. Para a executiva, reduzir emissões não significa apenas adequar a empresa às novas exigências ambientais, mas desenvolver produtos capazes de reduzir também as emissões de seus clientes.
Um dos exemplos citados é o briquete de minério de ferro, desenvolvido pela Vale ao longo de quase 20 anos. Segundo Parenti, a tecnologia exige menos energia em sua produção e pode reduzir em cerca de 10% as emissões de clientes que utilizam alto-forno, sem grandes alterações no processo. A empresa também investe em alternativas para o transporte marítimo e trabalha com clientes em iniciativas relacionadas ao aço de baixo carbono. “O futuro já existe. Ele só custa caro, porque ele precisa ter escala”, afirmou a executiva ao explicar o estágio atual de tecnologias como hidrogênio e combustíveis alternativos.
Metas ambientais também pressionam inovação
A estratégia se estende à mineração circular. A Vale havia estabelecido que 10% de sua produção de minério de ferro viria de mineração circular até 2030, mas alcançou 8% em 2025. Parenti afirmou que a experiência permitiu rever o ritmo inicialmente projetado. “Conforme a gente foi aprendendo, a gente viu que dava para acelerar”, disse. A companhia também utiliza rejeitos da mineração na produção de materiais como areia e blocos e afirma estar desenvolvendo tecnologias próprias para ampliar essas aplicações.
A executiva associou ainda a sustentabilidade ao uso de tecnologia para monitoramento e conservação. Segundo ela, inteligência artificial, sensores e sistemas de monitoramento são empregados tanto em processos industriais e estruturas como barragens quanto em projetos ambientais. Parenti citou um projeto-piloto que utiliza inteligência artificial para mensurar a quantidade de natureza em uma área degradada em processo de regeneração. No campo da conservação, afirmou que a Vale protege, em parceria com o ICMBio, cerca de 1,1 milhão de hectares no Brasil, área que, segundo a empresa, corresponde a dez vezes o território utilizado por suas operações.
Pressão regulatória muda cálculo da mineração
A antecipação também é apresentada como resposta ao avanço da regulação climática. Parenti citou a implementação do mecanismo europeu CBAM, cuja cobrança começa em 2027, e afirmou que o mercado brasileiro de carbono deverá se tornar efetivo em 2029. Para ela, uma indústria de ciclos longos não pode esperar a entrada em vigor das regras para adaptar suas operações.
“A gente não pode esperar chegar perto do prazo para fazer as coisas”, afirmou. Na avaliação da executiva, a combinação entre reservas de minério de alta qualidade e uma matriz energética renovável coloca a descarbonização como uma oportunidade comercial para a companhia. Segundo ela, as operações da Vale no Brasil utilizam atualmente 100% de energia renovável.













