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Por Ricardo Lima
Durante o Webinar “O talento do Brasil na Mineração”, realizado na quinta-feira (30) pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa Mineral e Mineração (ABPM) em parceria com a OBECON (Olimpíada Brasileira de Economia), o Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), a Associação de Minerais Críticos (AMC) e o Minera Brasil/Estadão Conteúdo, estudantes apresentaram propostas voltadas à criação de uma estratégia econômica para as terras raras brasileiras.
Amir Baja, Artur Costa e Luis Eduardo foram os medalhistas da edição deste ano da OBECON, que realizou a seletiva nacional para a Olimpíada Internacional de Economia (IEO), que será realizada em julho na China.
A moderação do encontro foi realizada por Luis Azevedo, presidente do Conselho Deliberativo da ABPM. Além dos jovens, participaram do encontro executivos de empresas como Marcelo de Carvalho, da Meteoric Resources e Thiago Amaral, da St George Mining, assim como representantes do setor, como Anderson Arruda, Diretor do Departamento de Transformação Mineral do Ministério de Minas e Energia, e Cinthia Rodrigues, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento do Instituto Brasileiro de Mineração.
O Desafio proposto aos estudantes e a seus grupos pela Bain, empresa internacional de consultoria, trouxe uma visão da nova geração que converge na necessidade do país avançar para etapas além da extração de terras raras. A iniciativa mostra que jovens brasileiros estão atentos às oportunidades que o setor mineral brasileiro oferece para o desenvolvimento do país.
“Não é sobre retorno financeiro, e sim sobre qual tipo de país o Brasil quer ser, se vamos nós posicionar como dominantes ou dominados na conjuntura global”
Luis Eduardo – Estudante
“Tudo isso faz parte de um debate muito mais profundo, que não é sobre retorno financeiro, e sim sobre qual tipo de país o Brasil quer ser, se vamos nós posicionar como dominantes ou dominados na conjuntura global”, afirmou Luis Eduardo, ingressante no curso de Economia e Ciências da Terra da Cornell University, e vencedor da medalha de bronze da OBECON.
Amir Baja destacou o paradoxo brasileiro: apesar de o país possuir uma das maiores reservas mundiais de terras raras, com 21 milhões de toneladas, responde por apenas 0,1% da produção global. Como solução, seu grupo propôs uma joint venture com a China, em que parte da produção seria exportada bruta e outra parte processada em parceria, permitindo ao Brasil capturar mais valor. Segundo ele, o modelo poderia gerar R$ 119,8 bilhões em 40 anos, contra apenas R$ 4,4 bilhões no cenário de exportação bruta.

Ele afirmou que o Brasil possui depósitos de argilas iônicas entre os mais promissores do mundo, até 12 vezes mais eficientes que jazidas de rocha dura, mas perde espaço para a China por falta de industrialização. Entre os entraves estão o alto custo de investimento, desafios no licenciamento, limitações tecnológicas e dificuldades regulatórias. Já a China consolidou sua liderança após décadas de política industrial e investimentos estatais, dominando a produção global de ímãs, motores elétricos e separação de terras raras.
Após 30 anos de parceria, o próximo passo seria o consórcio com o BRICS e o Vietnã. Ele enfatizou que a proposta não seria uma “OPEP das terras raras”, baseada em restrição de oferta, se referindo à organização petrolífera, mas sim um consórcio de expansão produtiva e tecnológica, beneficiando os países participantes e ampliando a oferta global. “O nosso consórcio coordena a tecnologia chinesa para que cada parceiro expanda a produção”, explica.
De acordo com Marcelo Carvalho, diretor-executivo da Meteoric, a lacuna entre reservas e produção ocorre devido a idade e maturação dos projetos, e não devido à regulação brasileira.
“Nos próximos 5 anos o Brasil vai ser o segundo maior produtor de terras raras do mundo, e isso vai ser desenvolvido em tempo recorde, considerando todas as empresas em paralelo no setor”, afirmou.
Refino doméstico e parceria com os EUA
Já Artur Costa defendeu a criação de refinarias domésticas e a expansão da extração de terras raras no Brasil por meio de uma parceria com os Estados Unidos. Segundo ele, a estratégia poderia adicionar US$ 33 bilhões ao PIB brasileiro e gerar mais de 15 mil empregos. Para Costa, os principais riscos atuais são a estratégia de preços agressivos abaixo do custo chinês, legislações inefetivas e a perda de soberania econômica.

O estudante afirmou que a China construiu uma cadeia produtiva verticalizada em torno das terras raras, consolidando-se não apenas como a maior produtora, mas também como a maior consumidora mundial, responsável por mais de 70% da demanda global.
Ele ressaltou que a participação brasileira no setor ainda é insignificante: em 2025, o país importou cerca de US$ 10 milhões em terras raras, enquanto exportou apenas US$ 3,6 milhões. “(Mas) o Brasil se posiciona como estabilizador da indústria, combinando a segunda maior reserva mundial e a única planta de separação e produção comercial fora da Ásia, a Serra Verde”, destacou.
Modelo híbrido entre a exportação e verticalização
Luis Eduardo afirmou que sua proposta buscou referências internacionais para fortalecer a mineração brasileira. Segundo ele, a Austrália firmou contratos de longo prazo com o Japão, garantindo preços mínimos e demanda previsível; o Canadá adotou incentivos fiscais para atrair investidores a projetos minerários em estágio inicial; e os Estados Unidos estabeleceram preços mínimos para proteger a produção nacional após os efeitos do dumping chinês.

Ele avaliou que, como simples exportador, o Brasil capturaria apenas cerca de 10% do valor potencial da cadeia de ímãs. Por outro lado, disse que uma verticalização imediata exigiria elevado investimento e enfrentaria riscos altos de fracasso devido à competitividade chinesa, falta de infraestrutura e baixa capacitação técnica. Por isso, defendeu um modelo híbrido, combinando receitas da exportação de concentrados com investimentos graduais em industrialização.
Na proposta, a primeira fase, até 2033, seria dedicada à expansão da extração e à melhoria do ambiente regulatório e financeiro. Entre 2033 e 2039, os recursos obtidos financiariam a verticalização e a criação de um instituto nacional de terras raras voltado à pesquisa e desenvolvimento. A partir de 2039, o Brasil estaria apto a competir globalmente, com apoio de contratos de longo prazo e parcerias estratégicas. Segundo ele, isso permitiria elevar a receita anual de US$ 300 milhões para US$ 7,8 bilhões e ampliar os empregos de 3 mil para 25 mil ao longo das três fases.
Pesquisa e Desenvolvimento
A proposta do grupo de Luis Eduardo inclui a estruturação de um Instituto Nacional de Terras Raras, que seria responsável pela verticalização dos elementos e pelo incentivo à Pesquisa e Desenvolvimento em universidades brasileiras. Segundo o estudante, tal proposta se justifica devido a ausência de entidade capaz de organizar o midstream nacional.
“O CETEM e o IPT não possuem integração com a escala proporcional que o Brasil tem a capacidade, não tem o financiamento, e não tem uma demanda garantida que proteja economicamente os projetos”, afirma. No entanto, Luis Eduardo propõe a integração entre institutos de pesquisa já atuantes. “O maior reforço no nosso plano seria a coordenação nacional dessas iniciativas que já existem, maior investimento nos gargalos tecnológicos e a transferência tecnológica”, explica.
Geopolítica
A escolha estratégica de parceiro para o desenvolvimento brasileiro nas terras raras não foi arbitrária ou ideológica, segundo Artur Costa. “Escolhemos uma relação com os EUA porque eles tem o que não temos e nós temos o que eles não tem. Os Estados Unidos possuem um mercado financeiro extremamente eficiente, mas não possuem reservas de terras raras”. De acordo com o estudante, é uma parceria que vai de encontro a necessidade de ambos os países.
O estudante destaca que dentre os países com as maiores reservas de terras raras, entre eles a Rússia e o Vietnã, apenas o Brasil possui maior alinhamento na política externa e geopolítica com os EUA. “A nossa ideia é abrir uma parceria bilateral com os EUA, em que vamos manter o controle brasileiro e ganhar tecnologia, mas eles terão um fluxo constante de terras raras”, explica.
Artur Costa pontua que não se trata de um alinhamento indefinido. “No longo prazo poderíamos nos desvincular de qualquer outra potência e coliderar com a China esse mercado”.
Thiago Amaral, diretor de desenvolvimento da St George no Brasil, destacou que a importância dos elementos de terras raras vai além de ímãs, eletrônicos e carros elétricos. “Na defesa, tecnologias como radares, drones, e todos esses materiais precisam de elementos de terras raras”. Segundo ele, tal condição torna necessária a busca por tais elementos pelos países do globo, como forma de garantir soberania.
O diretor de transformação mineral do MME, Anderson Arruda, elogiou as propostas e destacou o valor estratégico delas no momento atual. “Todas convergem com o interesse do governo brasileiro e, acredito, com o de toda a população, que é ter um projeto que avance em toda a cadeia de terras raras”, disse.
Cinthia Rodrigues, do Ibram, destacou a importância da iniciativa que busca interagir com a nova geração. “Falar para as universidades, falar para a escola, é quando estamos falando para toda a sociedade”, destacou.
O evento foi transmitido ao vivo pelo youtube da ABPM e Linkedin do Minera Brasil. Assista na íntegra:












