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Por Redação
A necessidade de reduzir a dependência global da China, ampliar mecanismos de financiamento e fortalecer a capacidade tecnológica brasileira dominaram os debates do painel sobre a cadeia da Grafita, realizado nesta quarta-feira (10), durante o Seminário Internacional de Minerais Críticos e Estratégicos do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM). Apesar de o Brasil reunir algumas das maiores reservas de grafita flake de alta qualidade do mundo, especialistas apontaram que o país ainda enfrenta obstáculos para converter essa vantagem geológica em protagonismo na cadeia de valor dos minerais críticos.
Para o diretor-executivo da Graphcoa, Ricardo Gonçalves Alves, a crescente preocupação geopolítica com o controle chinês da produção e do processamento da grafita tornou a expansão da oferta ocidental uma questão estratégica. Segundo ele, a necessidade de novos projetos não está relacionada à falta do mineral, mas à concentração da cadeia produtiva. “Os projetos são necessários não porque falta grafita, mas porque essa dependência causa uma exposição que, do ponto de vista geopolítico e estratégico, é percebida hoje como uma fraqueza”, afirmou. Alves destacou ainda que a China responde por cerca de 98% da produção mundial de grafita esférica, insumo essencial para baterias de veículos elétricos.
Coordenação institucional e financiamento
Alves argumentou que os mecanismos tradicionais de mercado não têm sido suficientes para viabilizar novos empreendimentos em minerais críticos, mesmo diante da crescente demanda global. “O capital privado, por si só, não resolve o nosso dilema. O que resolveria é a coordenação institucional”, disse. O executivo citou instrumentos como fundos garantidores, financiamentos de longo prazo, estoques estratégicos e incentivos governamentais já adotados por Estados Unidos e União Europeia para acelerar investimentos e aumentar a resiliência das cadeias produtivas fora da Ásia.
Na mesma linha, o diretor de Geologia e Recursos Minerais do Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM), Francisco Valdir Silveira, defendeu maior apoio estatal à pesquisa mineral e às instituições responsáveis pela geração de conhecimento geocientífico. Segundo ele, o país desperdiça informações valiosas produzidas ao longo de décadas e carece de uma política consistente para fortalecer órgãos de pesquisa. “Eu não vejo outra saída para o setor mineral que ele próprio se financie”, afirmou, ao propor a criação de um fundo setorial da mineração voltado ao financiamento de pesquisa, inovação tecnológica, universidades, institutos de pesquisa e o próprio Serviço Geológico do Brasil.
Verticalização como estratégia
Silveira também defendeu que o Brasil avance na definição de um modelo de desenvolvimento mineral voltado à agregação de valor. Para ele, a verticalização da cadeia pode ampliar a vida útil das operações minerárias e aumentar os benefícios econômicos para o país. “Se você quer aumentar as reservas sem necessariamente descobrir novos depósitos, é verticalizar a cadeia, porque você vai aumentar a vida útil da mineração”, afirmou. O geólogo acrescentou que os recursos gerados pela atividade mineral frequentemente são direcionados a outras finalidades, deixando de financiar pesquisa mineral e reposição de reservas.
O potencial de agregação de valor também foi destacado por Guilherme Lenz, vice-chefe do Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais da Escola Politécnica da USP e presidente da Associação Brasileira de Carbono (ABCarb). Segundo ele, a grafita é indispensável para setores como siderurgia, alumínio e baterias, mas o Brasil ainda não domina etapas mais sofisticadas do processamento. “A gente é muito bom em mineração e concentração, mas tem que dar um passo na química”, afirmou. Lenz observou que a transformação da grafita natural em produtos como grafita esférica e modificada superficialmente pode multiplicar em até 20 vezes o valor agregado do mineral.
Na abertura do debate, a coordenadora de Inovação do Mining Hub, Elis Santana, ressaltou que as restrições chinesas às exportações e os novos marcos regulatórios adotados por Estados Unidos e União Europeia criaram uma oportunidade inédita para países produtores alternativos. Segundo ela, a combinação entre a reorganização das cadeias globais de suprimentos e a posição privilegiada do Brasil em reservas de grafita abre uma “janela de oportunidade histórica” para que o país conquiste espaço em um mercado considerado estratégico para a transição energética e a indústria de baterias.












