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Por Redação
Transformar reservas minerais em uma cadeia industrial capaz de produzir componentes de alto valor agregado foi apontado como o principal desafio do Brasil para aproveitar a crescente demanda global por terras raras. O diagnóstico foi compartilhado por representantes da indústria, da academia e de empresas de mineração durante painel sobre a cadeia das Terras Raras, realizado nesta quarta-feira (10), no Seminário Internacional de Minerais Críticos e Estratégicos do IBRAM.
Embora o país possua importantes depósitos desses minerais estratégicos, os participantes destacaram que a competitividade brasileira dependerá da capacidade de desenvolver etapas hoje concentradas em poucos países, especialmente a separação, o refino e a fabricação de ímãs permanentes, insumos considerados essenciais para setores como veículos elétricos, energia eólica, defesa, saúde e tecnologias digitais.
“O desafio do Brasil é transformar a dotação geológica, a dotação mineral brasileira, em cadeia produtiva, capacidade tecnológica, separação, processamento, fornecimento confiável e de qualidade”, afirmou Jorge Boeira, analista de Produtividade e Inovação da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).
Segundo Boeira, apesar do nome, as terras raras não são escassas na natureza. O caráter estratégico desses elementos está relacionado à complexidade de separação e ao papel crítico que desempenham em diversas aplicações industriais.
Dependência chinesa preocupa cadeia global
Um dos pontos recorrentes do debate foi a elevada concentração global da cadeia produtiva na China.
De acordo com Boeira, os ímãs permanentes concentram aproximadamente 96% do valor econômico da cadeia das terras raras e permanecem fortemente dependentes da capacidade industrial chinesa.
“A cadeia é hoje altamente concentrada, especialmente em refino e fabricação de ímãs, especialmente na China”, disse.
A avaliação foi reforçada por Ricardo Grossi, presidente da Serra Verde Pesquisa e Mineração e COO do Grupo Serra Verde.
“Nós somos ainda um mercado concentrado. Noventa por cento da mineração está na China, 90% da separação está na China e mais de 90% do restante da cadeia também está na China”, afirmou.
Segundo ele, a criação de uma indústria alternativa exigirá tempo, investimentos e coordenação entre diferentes atores.
“Não se constrói nada, ainda mais num mercado tão desafiador, num curto espaço de tempo.”
Projetos buscam integrar cadeia da mina ao ímã
Entre as iniciativas apresentadas durante o painel está o Magbras, projeto voltado à produção nacional de ímãs permanentes de terras raras.
O pesquisador Luís Gonzaga Trabasso, do Instituto SENAI de Inovação em Sistemas de Manufatura e Processamento a Laser, explicou que o programa recebeu financiamento de R$ 73 milhões por meio de recursos do antigo Rota 2030, atual programa Mover.
Segundo ele, o projeto reúne montadoras, mineradoras, institutos de pesquisa e universidades para estruturar todas as etapas produtivas, desde a mineração até a reciclagem dos ímãs.
“Nós trabalhamos com o ciclo completo, desde a mina até o ímã”, afirmou.

O Magbras é um demonstrador industrial para a cadeia, segundo Luiz Gonzaga Trabasso. Foto: IBRAM / Divulgação.
Atualmente, o projeto opera de forma experimental e utiliza estruturas já existentes em diferentes estados para executar cada fase da cadeia.
“O Magbras é um demonstrador industrial. A ideia é construir uma ponte provisória que leve para uma produção industrial de fato.”
Sustentabilidade e reciclagem entram na estratégia
A construção da cadeia nacional também passa pela economia circular.
O professor Giancarlo Lovón-Canchumani, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), destacou que universidades e institutos de pesquisa vêm desenvolvendo tecnologias voltadas tanto à produção primária quanto à reciclagem de materiais contendo terras raras.
Segundo ele, estudos preliminares apontam que processos baseados em reciclagem podem reduzir em até 56% a pegada de carbono em comparação à rota convencional.
“A gente quer ver a visão do ciclo de vida. Vamos trabalhar da mineração à produção e à reciclagem”, afirmou.
Segurança jurídica e financiamento são apontados como gargalos
Além dos desafios tecnológicos, participantes defenderam avanços regulatórios para atrair investimentos.
A gerente corporativa da Viridis Mineração, Márcia Cunha, afirmou que a criação de um marco legal eficiente será determinante para garantir financiamento e contratos de longo prazo.
“Se a gente não tiver uma norma robusta, que traga segurança jurídica para empresas, investidores e mercado, a gente não vai conseguir avançar”, disse.
A empresa inaugurou no fim de maio uma planta de demonstração em Poços de Caldas (MG) voltada à produção de carbonato de terras raras e planeja implantar unidades-piloto para separação de óxidos e reciclagem de ímãs.
Já Renato Gonzaga, presidente no Brasil da Brazilian Rare Earths, defendeu que o país priorize previsibilidade regulatória e evite medidas que aumentem a percepção de risco para investidores.
“O que a gente quer é um ambiente de previsibilidade. Previsibilidade que não afasta o capital e que não torne esse capital mais caro”, afirmou.
Segundo ele, o principal desafio do setor continua sendo a obtenção de recursos para financiar projetos em diferentes etapas da cadeia produtiva.
Corrida de longo prazo
Para os participantes, a consolidação de uma indústria brasileira de terras raras dependerá da combinação de investimentos, desenvolvimento tecnológico, formação de mão de obra, segurança regulatória e integração entre empresas, universidades e governos.
“Isso não é uma corrida de 100 metros. Isso é uma maratona”, resumiu Renato Gonzaga.












