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Por Redação
O avanço da cadeia de armazenamento de energia deve ampliar a demanda por minerais críticos e estratégicos, criar novas oportunidades para aplicações industriais e impulsionar o desenvolvimento de tecnologias ligadas à eletrificação, inteligência artificial e mobilidade. O cenário foi debatido nesta quarta-feira (10), durante painel sobre Cadeia de Armazenamento de Energia, realizado no Seminário Internacional de Minerais Críticos e Estratégicos, promovido pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM).
Representantes da indústria, da pesquisa e do setor elétrico destacaram o potencial de materiais como nióbio e lítio na evolução das baterias, os esforços para estruturar uma cadeia produtiva nacional e os desafios relacionados à escala industrial, à competitividade e à expansão da infraestrutura energética necessária para sustentar a transição energética.
CBMM aposta em novos mercados para o nióbio
Ao apresentar a estratégia da empresa, o gerente executivo de Produtos e Baterias da CBMM, Rogerio Marques Ribas, destacou que a companhia identificou ainda no estágio inicial o potencial do nióbio para aplicações em baterias e passou a investir no desenvolvimento tecnológico da área.
“A gente começou a trabalhar com bateria quando efetivamente o nióbio ainda não era um elemento reconhecido como uma potencial aplicação em baterias”, afirmou.
De acordo com o executivo, a empresa mantém atualmente 41 projetos de pesquisa e desenvolvimento em andamento no Brasil, Europa, Estados Unidos, China, Japão e Coreia, buscando incorporar o nióbio a diferentes componentes das baterias de lítio.
Hoje, segundo Ribas, a CBMM já comercializa materiais para aplicações em cátodos e iniciou as primeiras vendas voltadas a ânodos. O objetivo é utilizar o nióbio para aprimorar características específicas das baterias, como recarga rápida, segurança operacional, durabilidade e redução de custos.
“Não são baterias de nióbio. São baterias de lítio nas quais a gente modifica a química para trazer uma propriedade que estamos buscando melhorar”, explicou.
Mineração e aplicações industriais aparecem como porta de entrada
Embora o mercado de veículos leves seja o principal símbolo da eletrificação global, a CBMM avalia que as oportunidades mais imediatas para o nióbio estão em segmentos industriais e comerciais, onde o tempo de parada dos equipamentos representa perda direta de produtividade.
Entre as aplicações citadas estão robôs logísticos, sistemas portuários, trens, embarcações, equipamentos industriais e veículos de mineração.
“Os atributos mais alinhados, no primeiro momento, são os de aplicações industriais e comerciais. Onde ficar parado perde dinheiro. É ali que a CBMM está trabalhando para criar esses novos mercados para o nióbio”, disse Ribas.
O executivo destacou ainda que operações de mineração, especialmente em equipamentos híbridos ou elétricos utilizados em minas subterrâneas e de superfície, exigem baterias com elevados padrões de segurança e vida útil.
“Em veículos de mineração, principalmente aqueles que podem operar tanto underground quanto na superfície, você precisa de baterias extremamente seguras e de vida longa”, afirmou.
Data centers de IA impulsionam demanda por armazenamento
Outro mercado apontado pela companhia como estratégico é o de data centers voltados à inteligência artificial.
Segundo Ribas, a crescente demanda energética desses sistemas tem impulsionado a busca por tecnologias de armazenamento capazes de combinar potência, segurança e durabilidade.
“Os sistemas de inteligência artificial são efetivamente power hungry. Você precisa de novas tecnologias que atendam tanto em termos de potência quanto em termos de energia”, afirmou.
A CBMM participa de iniciativas voltadas ao desenvolvimento de baterias de alta potência para esse segmento e citou também projetos ligados à fusão nuclear e a sistemas de armazenamento para recarga de veículos elétricos.
Segurança é diferencial das tecnologias com nióbio
Entre os principais diferenciais tecnológicos apresentados pela empresa está o aumento da segurança das baterias.
Segundo Ribas, a substituição de componentes convencionais à base de carbono por materiais contendo nióbio reduz significativamente o risco de formação de dendritos — estruturas associadas a curtos-circuitos internos e eventos térmicos.

Foto: IBRAM / Divulgação.
“O segredo do nióbio é que ele é intrinsecamente mais seguro por conta dessa janela de voltagem”, afirmou.
De acordo com o executivo, a tecnologia tem potencial para ampliar sua participação em aplicações de mobilidade no futuro, mas a entrada inicial deve ocorrer em nichos industriais e comerciais de maior valor agregado.
Brasil pode aproveitar posição estratégica na cadeia global
Já o presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), Ricardo Bastos, avaliou que o Brasil tem oportunidade de ocupar posição relevante na cadeia global de mobilidade elétrica por meio de parcerias industriais e produtivas com a China.
“O Brasil pode ser um grande parceiro da China, mas também desenvolver localmente projetos como esse”, afirmou.
Cadeia nacional busca superar gargalo de escala
Durante o painel, o coordenador de Smart Energy do Instituto Senai de Inovação em Eletroquímica, Heverson Renan de Freitas, destacou que um dos principais desafios para o avanço da indústria brasileira de baterias é a validação de materiais em escala pré-industrial.
Segundo ele, um projeto estruturante iniciado em 2024 reúne 27 empresas e investimentos de aproximadamente R$ 70 milhões para criar infraestrutura capaz de testar materiais nacionais em condições operacionais próximas às de mercado.
“O grande objetivo é quebrar esse gargalo e permitir essa produção. A gente não vai conseguir competir em massa com o que é produzido na China, mas pode entrar por mercados específicos e baterias de alto desempenho”, afirmou.
A estrutura deverá permitir a produção de centenas ou milhares de células para validação de materiais como lítio, óxidos metálicos e compostos contendo nióbio antes de sua adoção em escala industrial.
Acesso à rede elétrica preocupa indústria
Também durante o debate, o diretor de Energia Elétrica da Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), Victor Hugo Iocca, alertou que o principal obstáculo para a expansão da eletrificação no Brasil não é a oferta de energia, mas o acesso à infraestrutura de transmissão e distribuição.
“A maior restrição que nós temos hoje no país não é falta de oferta de energia, mas acesso, conexão”, afirmou.
Segundo ele, o sistema elétrico brasileiro dispõe de grande volume de energia renovável, mas enfrenta limitações de conexão à rede e problemas de competitividade decorrentes dos custos que chegam ao consumidor final.
“O Brasil tem uma sobreoferta de energia renovável gigantesca. O problema é que essa energia não chega de forma competitiva”, disse.
Para os participantes do painel, a combinação entre disponibilidade de minerais críticos, energia renovável e desenvolvimento tecnológico pode criar oportunidades para a expansão da indústria nacional de baterias, desde que desafios de escala produtiva, infraestrutura e competitividade sejam superados.













