Especial Lithium Business 2026
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Por Redação
O Brasil precisa aproveitar sua posição privilegiada na produção de minerais críticos para desenvolver uma indústria de maior valor agregado, reduzindo a exportação de matéria-prima e fortalecendo a cadeia nacional de processamento. A avaliação foi feita nesta quinta-feira (9), durante o Lithium Business 2026, em Salinas (MG), pelo coordenador de Processamento e Tecnologias Minerais do Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), Paulo Braga.
Segundo ele, o país possui recursos minerais estratégicos para atender à crescente demanda mundial impulsionada pela transição energética, mas ainda enfrenta gargalos tecnológicos que impedem maior agregação de valor à produção nacional.
“O governo brasileiro deve induzir o adensamento e a verticalização da cadeia produtiva do lítio, com a participação de novos atores, principalmente nas etapas de processamento mineral.”
Braga afirmou que a pesquisa, o desenvolvimento e a inovação (PD&I) são fundamentais para que o Brasil deixe de ocupar apenas o papel de fornecedor de concentrados minerais.
“Sem investimento em PD&I, sem recursos financeiros e sem inovação, a gente não vai a lugar nenhum.”
Paulo Braga – CETEM
Agregar valor ao lítio é o principal desafio
Durante a apresentação, o pesquisador defendeu que o país avance para etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva, produzindo compostos químicos de lítio e materiais destinados à fabricação de baterias.
Como exemplo, Braga comparou o valor do lítio presente no concentrado mineral com o do metal já transformado em produtos químicos de maior pureza.
“O quilo do lítio contido no concentrado vale cerca de US$ 100. No carbonato de lítio, esse mesmo quilo chega a aproximadamente US$ 130. É esse valor agregado que precisamos capturar.”
Segundo ele, ampliar o processamento interno representa uma oportunidade para aumentar a geração de riqueza, tecnologia e empregos no país.
Demanda por minerais críticos seguirá em crescimento
Braga destacou que a expansão da eletrificação da economia continuará impulsionando a demanda por minerais críticos, especialmente o lítio.
Ele lembrou que as baterias de íons de lítio passaram de cerca de 30% do mercado em 2014 para mais de 90% atualmente, tornando-se a principal tecnologia utilizada em veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia.
“O lítio lidera essa corrida dos minerais críticos estratégicos. Ele aumenta a densidade de energia, melhora a segurança, amplia a vida útil e o desempenho das baterias.”

Foto: Jefferson Ryan Costa Alves.
Além do lítio, o pesquisador citou como minerais estratégicos grafita, terras raras, cobre, níquel, manganês, tântalo, tungstênio, vanádio, urânio e elementos do grupo da platina.
Mineração terá de explorar minérios mais complexos
Na avaliação do coordenador do CETEM, a mineração brasileira precisará desenvolver novas tecnologias para manter a competitividade diante do esgotamento das jazidas de maior teor.
“As grandes jazidas estão se esgotando rapidamente. Precisamos desenvolver tecnologias para aproveitar minérios de baixo teor e de mineralogia cada vez mais complexa.”
Entre os principais desafios tecnológicos apontados estão:
- aproveitamento de minérios de baixo teor;
- processamento eficiente de partículas ultrafinas;
- redução do consumo de água;
- diminuição do consumo de energia;
- processamento mineral a seco;
- reaproveitamento de rejeitos e barragens;
- recuperação de minerais estratégicos contidos em resíduos da mineração.
Braga observou que a disponibilidade de água vem se tornando uma restrição crescente para o setor mineral, especialmente em regiões como o Vale do Jequitinhonha, exigindo o desenvolvimento de processos mais eficientes e sustentáveis.
Economia circular ganha protagonismo
Outro ponto destacado foi a necessidade de transformar rejeitos de mineração em novas matérias-primas.
Segundo o pesquisador, em alguns processos de beneficiamento do espodumênio apenas cerca de 5% do minério corresponde ao produto comercial, enquanto aproximadamente 95% permanecem como rejeito, criando oportunidades para novos aproveitamentos industriais.
Ele citou tecnologias de concentração, flotação, separação magnética, classificação, processamento a seco e sistemas de ore sorting (separação por sensores) como alternativas para aumentar a recuperação mineral e reduzir perdas.
Brasil já possui competência técnica
Braga afirmou que o país domina diversas tecnologias de beneficiamento e metalurgia extrativa do lítio, mas precisa ampliar a escala industrial.
Segundo ele, o CETEM desenvolve pesquisas em processamento mineral, metalurgia extrativa, terras raras, economia circular, reaproveitamento de resíduos, fertilizantes, recuperação de metais críticos e participa de um projeto para desenvolver a primeira bateria nacional com elevado grau de verticalização.
O centro também atua em estudos sobre recuperação de água de processo, processamento de ilmenita, aproveitamento de fosfatos, extração de potássio de rochas e tecnologias para produção de compostos utilizados em baterias.
Integração entre governo, empresas e pesquisa
Ao encerrar a palestra, Braga defendeu maior integração entre governo, universidades, institutos de pesquisa e empresas para consolidar uma indústria nacional de minerais críticos.
“O PD&I deve estar presente desde a pesquisa mineral, passando pela extração e pelo beneficiamento, até a obtenção de novos materiais. Não adianta desenvolver apenas uma etapa da cadeia.”
Para o pesquisador, o Brasil reúne reservas minerais, capacidade científica e empresas competitivas, mas precisa transformar essas vantagens em uma cadeia produtiva mais completa para aproveitar o crescimento global da demanda por minerais críticos associados à transição energética.














