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Por Redação
O Brasil reúne algumas das maiores reservas mundiais de minerais críticos para a transição energética, mas ainda transforma pouco desse potencial em produção efetiva e participação no mercado global. A conclusão é de um estudo apresentado nesta quarta-feira (10), durante o Seminário Internacional de Minerais Críticos e Estratégicos do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).
Elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com a Agência Nacional de Mineração (ANM), o levantamento identificou uma discrepância entre a posição estratégica do país em reservas minerais e seu desempenho produtivo. Segundo os pesquisadores, embora o Brasil possua grandes estoques de substâncias como grafita, terras raras, níquel, manganês e lítio, a produção nacional cresceu em ritmo inferior ao observado em outros países mineradores entre 2017 e 2023.
“O principal resultado do estudo seria a diferença entre potencial e realidade. O Brasil tem, de fato, reservas minerais muito expressivas, uma quantidade bastante relevante de substâncias. No entanto, a produção brasileira foi estagnada ou em queda no período analisado para a maioria absoluta dessas substâncias”, afirmou Rafael Leão, especialista em políticas públicas e pesquisador ligado ao estudo.
Brasil integra grupo de países fornecedores de matérias-primas
O levantamento analisou 13 minerais considerados estratégicos para a transição energética global, entre eles cobre, cobalto, grafita, lítio, terras raras, manganês, alumínio e zinco.
Segundo Mariano Laio de Oliveira, chefe da Divisão de Minerais Críticos e Estratégicos da ANM, o estudo foi desenvolvido a partir da metodologia utilizada pela Agência Internacional de Energia (IEA) em seu relatório Global Critical Minerals Outlook.
A pesquisa dividiu os países em três grupos. O primeiro é liderado pela China, que concentra desde a mineração até as etapas de processamento, refino e fabricação de equipamentos como baterias, painéis solares e sistemas de armazenamento de energia. O segundo reúne países desenvolvidos, como Estados Unidos, membros da União Europeia e Japão, que dependem da importação desses insumos. Já o terceiro engloba os grandes países mineradores, categoria na qual o Brasil está inserido.

Produção brasileira em terras raras e grafita permanece abaixo de países com menores reservas minerais, como Austrália e África do Sul. Foto: IBRAM / Divulgação.
“A China funciona na parte inicial da cadeia como uma opção praticamente obrigatória. A maioria dos minerais críticos comercializados globalmente é destinada ao país, porque lá estão concentradas as plantas de processamento e transformação mineral”, explicou Oliveira.
Reservas elevadas contrastam com baixa produção
Um dos principais indicadores apresentados relaciona reservas e produção mineral. De acordo com os pesquisadores, o Brasil aparece entre os países com maior volume de recursos minerais, mas distante dos líderes em aproveitamento dessas reservas.
O estudo destaca especialmente a grafita e as terras raras, minerais nos quais o país ocupa a segunda posição mundial em reservas. Apesar disso, o desempenho produtivo permanece abaixo de concorrentes como Austrália e África do Sul.
“Aquele gráfico é impactante porque mostra o Brasil como um destaque especialmente negativo de subaproveitamento das suas reservas. Com o tamanho das reservas minerais que o Brasil tem, o país teria condições de apresentar uma produção muito maior”, afirmou Leão.
Os dados também mostram perda de participação relativa do Brasil nas exportações globais desses minerais. Embora o valor exportado tenha crescido ao longo das últimas duas décadas, a fatia brasileira no mercado internacional diminuiu devido ao avanço mais acelerado da produção em outros países.
Investimentos crescem e podem marcar ponto de inflexão
Apesar do diagnóstico de subaproveitamento, os pesquisadores identificaram sinais de mudança a partir de 2023.
Dados de investimentos em lavra, pesquisa mineral e aquisição de bens de capital mostram crescimento expressivo dos aportes, com destaque para projetos relacionados a lítio, terras raras e cobre. Segundo os autores, informações mais recentes de 2024 e 2025 indicam que essa tendência continua em expansão.
“2023 parece ser um ponto de inflexão pelo tamanho dos investimentos. Investimento em formação de capital fixo, em lavra e em pesquisa é o que determina a produção futura. Se o Brasil conseguir manter taxas elevadas de investimento, é possível que na década de 2030 alcance um patamar superior de produção mineral”, disse Leão.
Oliveira acrescentou que o ambiente geopolítico internacional após 2024 também tem impulsionado o interesse estrangeiro pelo país. Segundo ele, a intensificação da disputa global por minerais críticos e a busca de Estados Unidos, Europa e Japão por alternativas à dependência chinesa têm ampliado os investimentos direcionados ao setor mineral brasileiro.
Desindustrialização é desafio para agregação de valor
Além da mineração, o estudo avaliou a capacidade do país de avançar nas etapas de transformação mineral e agregação de valor.
Segundo Leão, o cenário industrial brasileiro representa um obstáculo para que o país avance além da exportação de matérias-primas. O pesquisador argumentou que a metalurgia nacional apresenta trajetória de declínio desde a crise financeira internacional de 2008, enquanto a economia brasileira passou por um processo contínuo de desindustrialização.
“O Brasil reprimarizou sua economia e foi perdendo elos produtivos na indústria de transformação. A mineração cresceu ao longo dos últimos 20 anos, mas a metalurgia apresentou uma tendência clara de queda”, afirmou.
Para o pesquisador, a expansão da cadeia de minerais críticos dependerá não apenas do aumento da produção mineral, mas também da capacidade de o país recuperar competitividade industrial e ampliar a transformação desses recursos dentro do território nacional.
“O contexto macroeconômico e institucional tem sido hostil à industrialização ao longo dos últimos 30 anos. Todas as políticas voltadas para transformação mineral precisam enfrentar essa realidade estrutural”, concluiu.













