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Bahia entra no mapa das terras raras que o mundo procura

Brazilian Rare Earths estima VPL de US$ 7,9 bilhões e TIR de 89%; Disprósio e térbio, elementos estratégicos cuja oferta está concentrada na China, ampliam o potencial brasileiro nas cadeias globais de suprimento de minerais críticos.

13 de agosto de 2026
em Empresas
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Bahia entra no mapa das terras raras que o mundo procura

Crédito: Prosa News.

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Por Redação

Em um momento em que Estados Unidos, Europa e seus aliados investem bilhões de dólares para reduzir a dependência da China em terras raras, um projeto brasileiro com concentrações elevadas de disprósio e térbio, dois dos elementos mais sensíveis dessa cadeia que sustenta  novas tecnologias acaba de revelar uma dimensão econômica bilionária.

A Brazilian Rare Earths (BRE) divulgou um estudo de escopo para o projeto Rocha da Rocha, que estima Valor Presente Líquido (VPL) pós-impostos de US$ 7,9 bilhões, Taxa Interna de Retorno (TIR) de 89% e payback de apenas 1,1 ano. O capital estimado até a primeira produção de óxidos é de aproximadamente US$ 969 milhões.

Por trás dos números financeiros está uma característica que pode colocar o projeto brasileiro em uma posição particular no mercado internacional.

O principal ativo da companhia no país é o projeto Monte Alto, na Bahia, depósito que a BRE apresenta como um dos mais promissores do Brasil em terras raras, com mineralização de alto teor de elementos pesados. Os mais  cobiçados pela indústria. 

Monte Alto também é diferente de grande parte dos projetos que impulsionaram recentemente a corrida brasileira por terras raras. Enquanto vários ativos descobertos no país estão associados a argilas iônicas, o depósito baiano apresenta mineralização de rocha dura e alto teor. 

Depósito Monte Alto

Monte Alto é o principal vetor de valor do estudo de escopo. O depósito possui 3,4 milhões de toneladas de recursos minerais primários e residuais, com teor médio de 11,3% de óxidos totais de terras raras (TREO). Desse volume, 2,51 milhões de toneladas são classificadas como recursos indicados, com teor de 12,7% de TREO, enquanto 890 mil toneladas são inferidos, com teor de 7,1%.

A própria Brazilian Rare Earths descreve Monte Alto como a âncora de uma província mais ampla de minerais críticos. No documento, a companhia afirma que o depósito “não é simplesmente um depósito de terras raras de alto teor; é a âncora de uma província mais ampla de minerais críticos”, em tradução livre de trecho de comunicado em inglês da empresa.

O teor é um dos principais diferenciais econômicos. Segundo o estudo, a mineralização de Monte Alto apresenta uma concentração que supera em mais de duas vezes os teores reportados por dois grandes produtores ocidentais de terras raras. A companhia estima que essa característica reduza a intensidade de mineração, movimentação de material e processamento necessário para produzir cada quilo de produto vendável.

O depósito também apresenta concentrações relevantes de disprósio e térbio. Na estimativa de recursos, Monte Alto soma 810 partes por milhão de óxido de disprósio e 150 ppm de óxido de térbio, além de 3.780 ppm de óxido de ítrio.

O peso do disprósio e do térbio

É justamente na composição do minério que está uma das características mais estratégicas do projeto  da BRE.  Disprósio e térbio são terras raras pesadas usadas para aumentar a capacidade dos ímãs permanentes de manter desempenho em temperaturas elevadas. Isso os torna importantes para aplicações como veículos elétricos, robótica, defesa, aeroespacial e automação industrial.

O estudo destaca que, enquanto as cadeias ocidentais avançaram na construção de oferta de neodímio e praseodímio, as terras raras pesadas continuam sendo um dos principais gargalos estratégicos. A cadeia global de terras raras permanece fortemente concentrada na China em etapas que vão da mineração ao processamento, separação, fabricação de metais e produção de ímãs.

A projeção é de produção média, ao longo da vida útil  da mina, de 247 toneladas anuais de disprósio e térbio contidos no concentrado de terras raras pesadas, além de 989 toneladas anuais de ítrio. Nos primeiros cinco anos de produção em ritmo normal, a quantidade de DyTb chega a aproximadamente 274 toneladas por ano.

Pelos números apresentados pela companhia com base em estimativas da Benchmark Mineral Intelligence, o mercado global de óxidos separados de disprósio e térbio em 2031 seria de cerca de 4.365 toneladas anuais, sendo 3.049 toneladas provenientes da China e 1.316 toneladas de fora do país. A produção média projetada pela BRE, de 247 toneladas de DyTb por ano, equivaleria a uma parcela relevante da oferta ex-China projetada.

Uma mina compacta e uma refinaria em Camaçari

Outro elemento da estratégia está na forma de desenvolvimento. O estudo prevê uma operação de menor complexidade em Monte Alto, com mineração convencional, britagem, peneiramento e separação de minério por sensores. Não haverá processamento químico no local da mina.

O material beneficiado será transportado até Camaçari, onde a companhia planeja instalar a estrutura de processamento e separação. O complexo petroquímico baiano, segundo o estudo, oferece infraestrutura industrial, energia, água, logística, reagentes e mão de obra especializada já existentes.

É o chamado modelo “hub-and-spoke”: a mina funciona como uma operação compacta de beneficiamento, enquanto as etapas químicas e de separação ficam concentradas em um polo industrial. Para a BRE, o desenho reduz a complexidade da operação em Monte Alto e permite que a infraestrutura de Camaçari receba minério de diferentes áreas da província à medida que novos recursos sejam incorporados.

O estudo estima que o minério de Monte Alto possa passar por um processo de separação física capaz de dobrar o teor efetivo do material alimentado na planta, com recuperação de 97% do TREO contido e rejeição de aproximadamente metade da massa alimentada como rejeito.

No processamento químico, a rota prevista também busca reduzir a intensidade energética. O estudo trabalha com uma etapa de cura com ácido sulfúrico a 150 °C, abaixo dos mais de 250 °C associados a processos convencionais de processamento de monazita. A BRE estima ainda consumo de ácido sulfúrico cerca de 30% menor em relação a esse tipo de processamento.

Uma porta de entrada europeia

A estratégia comercial também ganhou um primeiro contrato relevante. A BRE firmou com a francesa Carester um acordo vinculante de 10 anos para compra de parte da produção de terras raras pesadas. O contrato cobre concentrado contendo até 150 toneladas anuais de disprósio e térbio e estabelece uma rota comercial para o mercado europeu.

A parceria não se limita à compra do produto. A Carester também presta serviços de engenharia e suporte técnico para a futura refinaria de terras raras em Camaçari, incluindo projeto de processo, seleção de equipamentos, comissionamento, ramp-up e otimização.

O contrato, porém, não cobre toda a produção projetada nem toda a vida útil do empreendimento. O acordo contempla até 150 toneladas anuais de disprósio e térbio por dez anos, enquanto a mina tem vida estimada de 14 anos. A BRE ainda precisará estruturar contratos comerciais para o volume restante.

Produção pode começar em 2031

No cenário-base do estudo, a primeira produção integrada está prevista para 2031. A vida útil estimada do projeto é de 14 anos, com produção média anual de 5.276 toneladas de óxido de NdPr e 2.253 toneladas de concentrado de terras raras pesadas. Nos primeiros cinco anos em ritmo normal, os números sobem para 6.351 toneladas de NdPr e 2.502 toneladas de HRE+ por ano.

O investimento até a primeira produção é estimado em US$ 969 milhões, incluindo contingências. A cifra contempla o desenvolvimento de Monte Alto e a primeira fase da estrutura de Camaçari. O estudo, no entanto, é classificado como uma avaliação preliminar, com precisão estimada de aproximadamente ±40%, e ainda depende de estudos mais avançados, licenças, financiamento e execução.

A companhia pretende avançar agora para a etapa de pré-viabilidade. O cronograma apresentado no estudo coloca a decisão final de investimento em meados de 2029, com o objetivo de iniciar a produção integrada em 2031, desde que as etapas técnicas, regulatórias e financeiras sejam concluídas.

Para uma Bahia que já ocupa posição relevante na indústria mineral e petroquímica, o projeto coloca uma nova peça no mapa: uma cadeia integrada de terras raras pesadas, com mineração no interior do Estado, processamento em Camaçari e uma produção voltada justamente para os elementos cuja oferta internacional é considerada mais restrita.

Porém a distância entre o depósito de alto teor de Monte Alto e uma operação comercial, ainda passa por estudos, licenciamento, financiamento e construção. A BRE tem todas as condições  de desbloquear  valor do ativo: expertise  técnica  e financeira.  

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