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Por Ricardo Lima
O tema das terras raras e a estruturação de uma cadeia desses elementos é atualmente um dos mais sensíveis do setor mineral brasileiro, na avaliação de Luis Eduardo Azevedo. Prestes a ingressar na Cornell University, de Nova York, o estudante elaborou, ao lado de quatro colegas, um plano estratégico que prevê a exploração e o processamento de terras raras desde a extração até a verticalização desses elementos.
A iniciativa, proposta durante a seletiva nacional para a Olimpíada Internacional de Economia (IEO), realizada pela Olimpíada Brasileira de Economia (OBECON), envolveu equipes de jovens com o objetivo de propor uma solução econômica para o tema dos minerais críticos nacionais.
Luis Eduardo e sua equipe conquistaram a medalha de bronze ao propor uma solução que, segundo ele, é pragmática e funcional para o contexto brasileiro. A proposta é dividida em três fases entre 2026 e 2039, e inclui financiamento via flow-through share, modelo canadense que elimina impostos na fase de exploração, permitindo maior viabilidade na implantação dos projetos e visando aumentar a exportação de concentrado.
A segunda fase propõe a criação de plantas de separação de terras raras, a implantação de núcleos de Pesquisa e Desenvolvimento em universidades brasileiras por meio de um Instituto Nacional de Terras Raras e o investimento na infraestrutura de beneficiamento intermediário.
Por fim, o projeto propõe a integração dos óxidos de terras raras com empresas que produzem ímãs, desbloqueando produtos industriais de maior valor agregado. O plano passa pelas etapas de concentrado, verticalização e por fim a integração e competição comercial da produção brasileira, aproveitando todas as etapas de valor das terras raras.
“O nosso plano foi baseado no que a Austrália e o Canadá fizeram para desenvolver o setor mineral. Acreditamos que o sucesso deixa pistas e nos baseamos em estratégias vencedoras“.
Luis Eduardo Azevedo
Na quinta-feira (30/4), o Minera Brasil, em parceria com a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa Mineral e Mineração (ABPM) realiza um Webinar sobre o futuro das terras raras brasileiras. Os finalistas da OBECON, ao lado de executivos de referência do setor mineral brasileiro, como Marcelo de Carvalho, da Meteoric Resources, Thiago Amaral, da St George Mining Brasil, Pablo Cesário, presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) e Luis Maurício Azevedo, CEO da Bravo Mining e presidente do Conselho da ABPM, irão debater propostas dos estudantes para oxigenar o debate em torno das terras raras
O encontro estará disponível por meio do link:
O Brasil possui a única produção comercial em larga escala de terras raras fora da Ásia, a mina Pela Ema do grupo Serra Verde, recentemente comprada pela norte-americana USA Rare Earth. Além disso, conta com diversos outros projetos entre as fases de licenciamento ambiental e desenvolvimento, como o Carina da Aclara Resources, localizado em Goiás, o Colossus da Viridis Mining e o Caldeira da Meteoric Resources, localizados em Minas Gerais.
Sustentabilidade e as vantagens do Brasil
Luis Eduardo afirma que o trabalho considerou normas internacionais de ESG (Environmental, Social, Governance) e que a sustentabilidade permeia todas as etapas do plano. Ele destaca que o plano direciona, por exemplo, como lidar com minerais radioativos encontrados junto com os elementos de terras raras, como o tório.
Ele contrasta que o Brasil, diferente da China, possui um mercado mineral com credibilidade na questão ambiental, além de uma matriz energética 83% renovável.
“Na China, especialmente no início da produção, eles despejavam resíduos nos rios e meio ambiente, causando impacto ambiental significativo”, afirma.
Segundo Luis Eduardo, o manejo cauteloso na extração aumenta o custo econômico, mas gera maior segurança, credibilidade para o produto e abre as portas para mercados como o europeu e americano.
“Por mais que a gente não consiga igualar o custo da China, o nosso preço de venda poderia ultrapassar o que os chineses conseguem vender”, destaca.
O estudante menciona que o mercado ocidental paga um prêmio de 15% a 30% nas terras raras externas à China, medida que ele afirma ter como motivação a busca por fornecedores que respeitam o meio ambiente.
Desafios de implementação
O plano de negócios do grupo, proposto pela consultoria Bain & Company, tinha como tarefa estabelecer uma estratégia brasileira na questão das terras raras. O Brasil possui a segunda maior reserva do mundo atrás da China, no entanto, na extração fica atrás de países com reservas menores, como o Vietnã.
“Tivemos dois caminhos: o de ser apenas um exportador ou de verticalizar totalmente. A gente escolheu um caminho híbrido por ser mais viável financeiramente, ao invés de nacionalização completa ou ser mero fornecedor de commodities”, explica.
O plano apresenta nove entraves estruturais no desenvolvimento de uma cadeia brasileira de terras raras. Entre eles, a ausência de uma legislação específica para minerais críticos, o fato do Brasil ainda não ter capacidade de separação de terras raras e a dificuldade de acesso a financiamento.
De acordo com o estudante, a dificuldade tecnológica é o principal entrave para a implementação do plano, pois impede que o Brasil chegue à etapa de verticalização, etapa que ele afirma ser “território que ainda não foi explorado” no país.
Para isso, o plano propõe a criação de um Instituto Nacional de Terras Raras, de forma a incentivar Pesquisa e Desenvolvimento e negociar parcerias de transferência tecnológica com empresas líderes no setor. Ele argumenta que parcerias com empresas privadas que possuem capacidade de refino seria o tipo de acordo mais benéfico, já que o Brasil ainda não tem essa capacidade.
“Um exemplo é a MP Materials, que tem essa condição de verticalização nos Estados Unidos. Além disso, empresas australianas também já demonstraram esse interesse de fazer parceria tecnológica com o Brasil”, afirma.
Segundo ele, é fundamental pensar numa perspectiva neutra e benéfica para o Brasil quando se trata de recursos naturais. “A gente estaria, sim, obtendo benefício firmando uma parceria com os Estados Unidos”, ele diz.
“Ao mesmo tempo, uma possível parceria com a China, caso venha a emergir, não deveria ser visto como algum alinhamento político mais profundo. A gente está negociando a nossa capacidade de prosperar, não ideologia”, afirma.
O estudante afirma que o aspecto técnico da mineração foi o maior desafio para os grupos que participaram da seletiva, mas não para ele, pessoalmente.
“Eu já tenho um background de berço nessa área, trabalhando numa empresa de minerais críticos, a Bravo Mining”, diz. Ele destaca que, graças a experiência, possuí um conhecimento técnico acima do esperado, que usou para elevar o nível da proposta do grupo.














