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Por Vilmar Simões – Diretor-presidente do Serviço Geológico do Brasil (SGB)
Vivemos um momento civilizatório singular, marcado pela convergência de pressões demográficas, energéticas, alimentares, tecnológicas e geopolíticas. Nas próximas décadas, a população mundial se aproximará de 10 bilhões de pessoas, com forte crescimento concentrado em regiões ainda em processo de urbanização, industrialização e ampliação do consumo per capita. Esse processo implicará aumento expressivo da demanda por alimentos, energia, infraestrutura, bens industriais, fertilizantes, água, transporte, sistemas digitais e tecnologias avançadas. Portanto, o desafio central do século XXI não será apenas produzir mais, mas produzir mais com maior eficiência, menor impacto ambiental, maior segurança de suprimento e menor vulnerabilidade geopolítica.
A segurança alimentar ilustra bem essa complexidade. Para sustentar uma população maior, mais urbana e com padrões alimentares mais intensivos em proteína, a produção agrícola global terá que crescer significativamente. Esse crescimento dependerá de ganhos de produtividade, irrigação, mecanização, correção de solos, ciência agronômica e, inevitavelmente, fertilizantes nitrogenados, fosfatados e potássicos. A agricultura moderna é inseparável da disponibilidade de nutrientes minerais. Fosfato, potássio, enxofre, calcário agrícola e micronutrientes são recursos geológicos não renováveis em escala humana, cuja oferta depende de depósitos minerais, infraestrutura logística, processamento industrial e estabilidade geopolítica. A crise recente nos preços da ureia e de outros fertilizantes demonstrou que segurança alimentar, energia e mineração são dimensões interdependentes de uma mesma questão estratégica.
A demanda energética seguirá em trajetória ascendente. Mesmo com ganhos de eficiência, a expansão urbana, a eletrificação de transportes, a climatização, a indústria, a dessalinização, a automação, a inteligência artificial e os data centers pressionarão fortemente os sistemas elétricos. As fontes renováveis crescerão rapidamente e terão papel indispensável, mas sua integração exige redes mais extensas, sistemas de armazenamento, geração firme, controle digital, maior flexibilidade operacional e grande volume de materiais. Portanto, a transição energética não elimina a mineração; ao contrário, desloca parte da dependência dos combustíveis fósseis para uma dependência ampliada de metais, minerais industriais e materiais críticos.
Esse ponto é fundamental. Uma economia baseada em eletrificação, baterias, turbinas eólicas, painéis solares, redes de transmissão, motores elétricos, semicondutores, robótica, defesa, satélites, medicina avançada e inteligência artificial exige uma base mineral muito mais diversificada do que a economia industrial convencional. Cobre, lítio, níquel, cobalto, grafite, manganês, terras raras, nióbio, tântalo, estanho, tungstênio, gálio, germânio, índio, telúrio, platinoides e outros elementos passam a ocupar posição central nas cadeias produtivas. Muitos desses elementos ocorrem em baixos teores, em depósitos geologicamente complexos, com mineralogia difícil, distribuição geográfica restrita e cadeias de processamento concentradas em poucos países. A vulnerabilidade, portanto, não está apenas na existência geológica do recurso, mas na capacidade de descobri-lo, caracterizá-lo, lavrá-lo, processá-lo, separá-lo e transformá-lo em insumos industriais.
Nesse contexto, os serviços geológicos nacionais tornam-se instrumentos estratégicos de Estado. Sua função vai muito além da produção de mapas geológicos tradicionais. Eles são responsáveis pela geração de conhecimento pré-competitivo, integração de bases geofísicas, geoquímicas, geocronológicas, metalogenéticas e ambientais, definição de províncias favoráveis, redução do risco exploratório, organização de bancos de dados públicos, apoio ao ordenamento territorial e fundamentação técnica de políticas minerais. Em um cenário de crescente competição por minerais críticos, a informação geocientífica de qualidade passa a ser uma infraestrutura tão relevante quanto estradas, portos, energia e telecomunicações.
Países mineradores avançados compreenderam essa realidade. Canadá e Austrália, grandes produtores e exportadores de bens minerais, vêm ampliando investimentos públicos em geociência aplicada, mapeamento profundo, modelagem de sistemas minerais, integração de dados digitais e parcerias com o setor privado. A lógica é clara: o setor privado investe onde o risco geológico é compreensível e onde há informação pública confiável. Quanto melhor a base geocientífica pré-competitiva, maior a capacidade de atrair capital exploratório, orientar investimentos, acelerar descobertas e reduzir desperdícios. A descoberta mineral moderna depende cada vez menos de prospecção empírica e cada vez mais de modelos preditivos, dados integrados, laboratório de alta qualidade, inteligência artificial, geofísica profunda, geoquímica isotópica e compreensão dos sistemas minerais em escala crustal e litosférica.
Os técnicos do SGB, ao longo de mais de meio século, têm demonstrado a extraordinária diversidade geológica do território brasileiro. Ao mesmo tempo, o setor privado vem reconhecendo e utilizando os dados geológicos básicos de forma crescente, selecionando de forma mais adequada os locais para seus investimentos prospectivos acelerando o fluxo de descobertas. Um exemplo expressivo é a atual corrida prospectiva por elementos de terras raras, com mais de 40 projetos em fases de pesquisa, avaliação ou implantação, distribuídos por diferentes contextos geológicos e em diversos estados brasileiros. Esse movimento evidencia que o Brasil reúne não apenas potencial geológico relevante, mas também condições para ampliar sua participação nas cadeias globais de minerais críticos, desde que esse potencial seja adequadamente caracterizado, certificado e integrado a uma política mineral de longo prazo.
Entretanto, potencial geológico não é sinônimo de reserva, e ocorrência mineral não é sinônimo de cadeia produtiva. Transformar potencial em descoberta, descoberta em recurso, recurso em reserva e reserva em produção exige ciência, tecnologia, governança, licenciamento eficiente, caracterização mineralógica, testes metalúrgicos, infraestrutura e segurança jurídica. Por isso, a agenda dos minerais críticos deve ser tratada como uma agenda prioritária no SGB.
O papel dos serviços geológicos nacionais é central no atual momento civilizatório. Para isso devemos: ampliar o conhecimento do território, identificar sistemas minerais favoráveis, qualificar tecnicamente os dados sobre recursos e reservas, apoiar a definição de prioridades nacionais, reduzir assimetrias de informação e induzir parcerias qualificadas com universidades, centros de pesquisa, empresas e investidores. Em um mundo onde a demanda por metais cresce, as cadeias de suprimento se tornam mais vulneráveis e a competição geopolítica se intensifica, países que dominam sua geologia terão maior capacidade de decidir seu futuro industrial, tecnológico e energético. Estes são os desafios que o SGB terá que enfrentar por meio da maior eficiência operacional, melhor infraestrutura laboratorial, intensificação das atividades de campo e robusta carteira de projetos de P,D&I com o setor privado e órgãos de financiamento da pesquisa científica, contribuindo para a diversificação das fontes de recursos, além do Tesouro Nacional.
*Vilmar Simões é diretor-presidente do Serviço Geológico do Brasil (SGB)















