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Por Germano Vieira, CEO e cofundador da Alger Consultoria Socioambiental
Participei neste mês de julho do Lithium Business 2026, em Salinas, no Vale do Jequitinhonha, evento que reuniu empresas, especialistas, autoridades e representantes de diferentes setores para discutir o presente e o futuro da cadeia do lítio e dos minerais críticos. Ao longo dos debates, um aspecto ficou evidente: a mineração brasileira vive um momento de profunda transformação.
Muito se falou sobre investimentos, transição energética, agregação de valor, infraestrutura, desenvolvimento regional e geração de empregos. Todos esses temas são fundamentais, especialmente diante do avanço da demanda mundial por minerais considerados estratégicos para a nova economia de baixo carbono.
Os números ajudam a dimensionar esse movimento. O mercado global de lítio deve avançar de 1,84 milhão de toneladas de carbonato de lítio equivalente (LCE), em 2026, para 4,43 milhões de toneladas até 2031, uma expansão média anual de 19,24%. Em 2025, somente o segmento de baterias respondeu por 79,59% da demanda pelo mineral, enquanto o setor automotivo concentrou 51,14% do consumo.
A escala e, principalmente, a velocidade desse crescimento mostram que o lítio deixou de ser apenas mais uma matéria-prima mineral para assumir papel central em cadeias estratégicas globais, impulsionado pela expansão dos veículos elétricos e dos sistemas de armazenamento de energia.
Para países com potencial mineral como o Brasil, esse cenário representa uma oportunidade evidente. Mas também exige uma reflexão: se a demanda cresce nessa velocidade e novos projetos precisam avançar, como garantir que os empreendimentos sejam estruturados sobre bases sólidas e capazes de permanecer no território no longo prazo?
Ao ouvir diferentes painéis e conversar com profissionais do setor durante o Lithium Business, saí do evento convencido de que existe uma questão ainda mais decisiva para o sucesso dos empreendimentos: a capacidade de planejar corretamente o projeto antes mesmo do início do licenciamento ambiental.
Na minha visão, é justamente aí que está um dos maiores desafios da mineração brasileira.
Ainda é comum que os estudos ambientais sejam tratados como uma etapa posterior, quando boa parte das decisões de engenharia, localização e implantação já foi tomada. O problema é que, quando questões ambientais e sociais aparecem apenas durante o licenciamento, as possibilidades de adaptação diminuem e os custos aumentam.
É por isso que acredito que a pré-viabilidade ambiental precisa ocupar um papel central na estratégia dos empreendimentos.
Essa etapa permite compreender o território antes das grandes decisões. Permite identificar restrições ambientais, avaliar riscos, entender as características da região, antecipar conflitos, analisar aspectos regulatórios e construir alternativas tecnicamente mais seguras. Mais do que facilitar o licenciamento, ela reduz incertezas para investidores, evita retrabalhos e torna os projetos mais robustos.
É preciso compreender que a viabilidade de um projeto mineral não se resume à qualidade da jazida ou à perspectiva de retorno econômico. As características ambientais e sociais do território também podem impactar diretamente o cronograma, os custos e a capacidade de implantação de um empreendimento.
Quanto mais cedo essas variáveis entram na tomada de decisão, maior é a possibilidade de avaliar alternativas e adaptar o projeto. Quando uma restrição relevante é identificada tardiamente, qualquer mudança pode significar revisão de engenharia, novos estudos, alterações de cronograma e aumento dos custos.
Planejar melhor nunca atrasou um bom empreendimento. Pelo contrário. Normalmente, é a falta de planejamento que gera atrasos, insegurança jurídica e aumento de custos.
Antecipar riscos ambientais e sociais não significa criar obstáculos para a mineração. Significa tomar decisões com mais informação e previsibilidade. Em um cenário de crescimento acelerado da demanda por minerais críticos, acredito que essa capacidade será cada vez mais importante também para investidores.
Outro tema que apareceu de forma recorrente durante o Lithium Business foi a importância da relação entre mineração e comunidades.
Esse talvez seja um dos pontos que mais evoluíram nos últimos anos. Hoje existe uma compreensão muito maior de que desenvolvimento econômico não acontece separado do desenvolvimento social.
Costumo dizer que sem apoio social não há projeto que pare em pé.
Não importa o tamanho da reserva mineral, a qualidade da engenharia ou a capacidade financeira do investidor. Se a população não compreender o projeto, não confiar na empresa ou não enxergar benefícios concretos para o território, a operação inevitavelmente enfrentará dificuldades.
A chamada licença social não é um documento emitido por um órgão público. Não existe protocolo, carimbo ou certificado capaz de garantir a confiança das comunidades. Ela é construída diariamente, por meio da relação que uma empresa estabelece com o território.
E confiança não se conquista quando as máquinas chegam.
Ela começa muito antes. Começa quando a empresa se apresenta, explica seus objetivos, escuta as preocupações das comunidades, reconhece as vocações locais e incorpora essas percepções ao planejamento do empreendimento.
As comunidades não podem ser vistas apenas como parte de uma área de influência delimitada nos estudos ambientais. Estamos falando de pessoas que vivem, trabalham, produzem e constroem relações naquele território muito antes da chegada de qualquer empreendimento.
Por isso, o diálogo não pode ser acionado apenas quando surge um conflito ou quando uma etapa formal do licenciamento exige participação pública. Ele precisa fazer parte da própria estratégia do projeto.
É por isso que também acredito que as empresas precisam entrar pela porta da frente.
E isso significa chegar ao território com transparência. Significa estabelecer diálogo desde o início, comunicar de forma clara o que será desenvolvido, ouvir quem vive na região e construir relações antes que os conflitos apareçam.
Durante muito tempo, falar pouco sobre um projeto foi entendido por algumas empresas como uma maneira de reduzir riscos. Na prática, a ausência de informação cria espaços para insegurança, especulações e narrativas que nem sempre correspondem à realidade do empreendimento.
Quando a empresa não explica seu projeto, outras versões ocupam esse espaço.
Entrar pela porta da frente, portanto, também significa assumir a responsabilidade de comunicar. Não com um discurso publicitário, mas com clareza sobre o projeto, suas etapas, os impactos em avaliação e os compromissos que serão assumidos ao longo do processo.
Não se trata apenas de uma postura ética. Trata-se de inteligência empresarial. Empresas que estabelecem relações transparentes desde o início tendem a compreender melhor o território, antecipar riscos, fortalecer sua reputação e criar um ambiente mais favorável para o desenvolvimento dos projetos.
O Vale do Jequitinhonha simboliza hoje uma oportunidade histórica para o Brasil. A crescente demanda mundial por minerais críticos coloca a região em posição estratégica para contribuir com a transição energética global e impulsionar o desenvolvimento econômico de Minas Gerais.
Os próprios números do mercado de lítio ajudam a entender o tamanho da oportunidade que está diante de nós. Se a demanda global mais do que dobrar até 2031, como indicam as projeções, novas operações, investimentos e cadeias produtivas precisarão avançar em diferentes partes do mundo.
O Brasil pode ocupar um espaço importante nesse processo.Mas essa oportunidade traz consigo uma responsabilidade proporcional.
A chegada de novos investimentos pode gerar empregos, ampliar a arrecadação dos municípios, estimular a qualificação profissional e criar novas atividades econômicas. Ao mesmo tempo, pode pressionar infraestrutura, habitação, serviços públicos e a dinâmica social de cidades que passam por uma transformação acelerada.
Por isso, quando falamos de viabilidade de projetos minerais, precisamos olhar além dos limites físicos do empreendimento.
Precisamos compreender o território.
E existe uma reflexão que considero indispensável: não faz sentido falar em minerais essenciais para uma economia mais sustentável sem discutir como esses minerais serão produzidos.
A capacidade de compreender riscos socioambientais, antecipar desafios e construir relações de confiança com os territórios passou a fazer parte da própria viabilidade dos empreendimentos.
O sucesso começa muito antes.
Começa no planejamento.
Começa na pré-viabilidade ambiental.
Começa na construção de confiança com as comunidades.
E começa quando as empresas escolhem entrar pela porta da frente.
Esse foi, para mim, o principal aprendizado dos debates que acompanhei no Lithium Business 2026. Mais do que discutir o futuro do lítio, o evento reforçou que o futuro da mineração será definido pela capacidade de integrar desenvolvimento econômico, responsabilidade socioambiental e diálogo permanente com os territórios onde os projetos acontecem.
Quem compreender essa mudança estará mais preparado para liderar a próxima geração da mineração brasileira.













