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Por Ricardo Lima
Um levantamento nacional aponta que o Brasil pode reduzir a dependência de minerais críticos importados ao recuperar elementos estratégicos presentes em resíduos eletroeletrônicos descartados no país, estimados em mais de 2,4 milhões de toneladas por ano.
Coordenado pelo Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Projeto RECUPER3 apresenta um diagnóstico abrangente da cadeia de resíduos e sugere modelos de negócio para converter o descarte tecnológico em recurso estratégico para a indústria.
Equipamentos como celulares, computadores e baterias concentram materiais de alto valor entre eles lítio, cobalto, ouro, platina e paládio, cuja demanda global cresce com a transição energética. Esses resíduos são classificados como “minas urbanas”, por funcionarem como fontes secundárias desses insumos.
A coordenadora do estudo, a pesquisadora Lúcia Helena Xavier, afirma que o país ainda subaproveita esse potencial.
“O Brasil ainda joga fora uma riqueza enorme. Cada celular, cada placa de circuito que vai para o lixo comum carrega minerais críticos que precisamos importar a custo elevado”
Lúcia Helena Xavier – CETEM
“O Brasil ainda joga fora uma riqueza enorme. Cada celular, cada placa de circuito que vai para o lixo comum carrega minerais críticos que precisamos importar a custo elevado”, diz. “Com rastreabilidade, processamento nacional e políticas consistentes, a mineração urbana pode garantir o fornecimento desses insumos e fortalecer a soberania tecnológica.”
O levantamento de campo, realizado entre julho de 2024 e março de 2025, ouviu 1.426 consumidores e analisou diferentes atores da cadeia, como comerciantes, recicladores, catadores e órgãos ambientais.
Um dos principais achados do estudo foi o chamado “índice de retenção domiciliar”: 81,2% dos brasileiros mantêm equipamentos obsoletos em casa por longos períodos, muitas vezes contendo substâncias tóxicas como chumbo, mercúrio e cádmio.
“Há falta de informação sobre onde e como descartar esses materiais, o que contribui para o acúmulo doméstico”, explica Xavier.
O diagnóstico também aponta limitações na infraestrutura e na regulação, como a rede ainda insuficiente de Pontos de Entrega Voluntária (PEVs), a baixa adesão do varejo às exigências legais e as diferenças significativas entre os estados nos processos de licenciamento ambiental e monitoramento.
Para enfrentar essas lacunas, o estudo sugere ações integradas que incluem campanhas de educação para o descarte correto, a harmonização das legislações estaduais e o investimento em tecnologias nacionais de refino e reprocessamento.
A iniciativa foi organizada em cinco eixos principais: mapeamento de agentes econômicos e modelos de negócio, análise empírica das práticas atuais de reciclagem, avaliação de rotas tecnológicas (piro, hidro e biometalurgia), desenvolvimento de indicadores de circularidade e estudo de arranjos produtivos locais.
Marco regulatório da economia circular
O avanço da reciclagem de resíduos eletroeletrônicos no Brasil ocorre em meio à consolidação de um marco regulatório voltado à economia circular, estruturado a partir da Lei Federal nº 12.305/2010, que estabeleceu a responsabilidade compartilhada e a logística reversa. Normas mais recentes ampliaram esse escopo, como o Decreto Federal nº 11.413/2023, que criou mecanismos de compensação para o cumprimento de metas de destinação de resíduos, e a Lei Federal nº 15.088/2025, que flexibiliza a importação de materiais com potencial de reaproveitamento industrial, incluindo aqueles com minerais críticos.
Nesse contexto, as recomendações do estudo se alinham às diretrizes em consolidação, ao apontar a necessidade de integração entre políticas públicas, desenvolvimento tecnológico e mercado. “A consolidação desse marco legal, aliada às recomendações do projeto, deve gerar resultados relevantes para a economia circular de alta tecnologia no Brasil”, afirma a pesquisadora Lúcia Helena Xavier.













