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Justiça inglesa declara BHP culpada pelo desastre de Mariana

Alta Corte da Inglaterra conclui que risco de ruptura era previsível e que empresa atuou como poluidora; escritório de advocacia vê “vitória histórica”

14 de novembro de 2025
em Internacional
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Justiça inglesa declara BHP culpada pelo desastre de Mariana

Disputa judicial ocorre no contexto mais amplo das ações relacionadas ao rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em 2015. Imagem: Antônio Cruz / Agência Brasil.

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Por Ricardo Lima

A Alta Corte da Inglaterra declarou, nesta sexta-feira (14), que a BHP é responsável pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), com base na legislação ambiental e no Código Civil brasileiros.

A decisão afirma que a mineradora tinha conhecimento prévio do risco de ruptura e deixou de adotar medidas capazes de evitar a tragédia, que deixou 19 mortos e devastou 675 km de cursos d’água. O resultado é uma vitória para o escritório Pogust Goodhead, que representa as vítimas.

Corte aponta responsabilidade objetiva e risco previsível

Na sentença, a juíza Finola O’Farrell concluiu que a BHP incorreu em responsabilidade objetiva pelos danos causados pelo colapso da barragem. A magistrada afirmou que “a BHP é estritamente responsável como ‘poluidora’ pelos danos causados pelo colapso, nos termos dos artigos 3(IV) e 14 da Lei Ambiental”, destacando que para o tribunal, a legislação brasileira é suficiente para fundamentar a imputação de responsabilidade às controladoras da Samarco. 

A juíza também ressaltou que o colapso poderia ter sido evitado, destacando que “o risco de colapso da barragem era previsível”, diante de sinais de instabilidade, falhas de drenagem e material saturado identificados antes de 2015. Em sua análise, O’Farrell ressaltou haver “provas esmagadoras” de que a instabilidade era conhecida pela BHP pelo menos desde agosto de 2014. Mesmo assim, a empresa não adotou medidas corretivas adequadas e continuou a elevar a barragem, atitude que, para a Corte, caracterizou negligência, imprudência e imperícia.

A decisão também rejeitou tentativas da mineradora de limitar sua responsabilidade e confirmou que o processo segue para a fase de avaliação dos danos, prevista para iniciar em 2026. Além disso, o tribunal confirmou que alguns acordos de indenização assinados no Brasil continuam valendo, o que reduz o número de pessoas que podem seguir com ações na Inglaterra.

A juíza também destacou evidências de que a BHP, ao lado da Vale, exercia controle sobre a Samarco de forma contínua, atuando como sua “mente diretiva”, influenciando decisões estratégicas e operacionais e assumindo a gestão dos riscos da barragem, o que reforçou o entendimento de que a empresa não poderia ser tratada como mera acionista passiva. Por fim, o Tribunal considerou que processos criminais no Brasil interromperam o curso do prazo prescricional, afastando qualquer barreira temporal e permitindo a continuidade das ações.

Escritório celebra vitória e fala em precedente global

A ação coletiva no Reino Unido reúne quase 600 mil atingidos e é conduzida pelo escritório internacional Pogust Goodhead, que vê o resultado como um marco para a responsabilização das empresas envolvidas na tragédia. Procurada pelo Minera Brasil após a divulgação da sentença, o escritório classificou o desfecho como uma “vitória histórica”, afirmando que o julgamento representa um avanço para vítimas que “há dez anos buscam a responsabilização efetiva”.

A CEO do escritório, Alicia Alinia, destacou o caráter global da decisão. “Esta decisão envia um recado claro para multinacionais no mundo todo. Não é possível ignorar o dever de cuidado e simplesmente se afastar da destruição causada. A responsabilidade está estabelecida. A BHP agora deve responder e pagar o que é devido”, afirmou.

Vale diz que responsabilidade será compartilhada

Em nota, a Vale afirmou que, embora a decisão da High Court seja dirigida à BHP, ela também repercute sobre a estrutura de responsabilização da Samarco, responsável pela operação da barragem e da qual a Vale é acionista. A companhia confirmou que o tribunal inglês considerou a BHP responsável pelo rompimento sob a legislação brasileira, e destacou que as quitações assinadas por pessoas já indenizadas no Brasil “reduzirão o número de reclamantes e o valor das demandas”.

A empresa também informou que, em julho de 2024, Vale e BHP firmaram um acordo confidencial prevendo o compartilhamento igualitário de eventuais condenações — seja da BHP, no processo inglês, ou da própria Vale, em litígio que tramita nos Países Baixos.

Segundo a nota, a Vale e a BHP “permanecem confiantes” de que o Acordo Definitivo firmado no Brasil, em outubro de 2024, no valor de US$ 32 bilhões, oferece “os mecanismos mais rápidos e eficazes para compensar os impactados”. A empresa diz que já foram destinados US$ 13 bilhões em reparação desde 2015, sendo mais de US$ 6 bilhões em indenizações e auxílios financeiros.

A mineradora afirma ainda que a reconstrução das comunidades atingidas está próxima da conclusão e que prevê uma provisão adicional de US$ 500 milhões em suas demonstrações financeiras de 2025, vinculada às obrigações decorrentes do desastre.

Municípios mantêm legitimidade para litigar na Inglaterra

A sentença também repercute no embate jurídico entre Brasil e Reino Unido ao confirmar a legitimidade dos municípios brasileiros para seguir com suas ações na Justiça inglesa. Hoje, 31 municípios integram o processo e, embora sua atuação tenha sido contestada pelas mineradoras no Supremo Tribunal Federal (STF), a High Court decidiu que eles têm direito de continuar litigando no Reino Unido.

Próximos passos

O caso agora avança para a etapa de avaliação dos danos. Uma audiência de gerenciamento está marcada para 17 e 18 de dezembro de 2025, e o julgamento da fase 2 deve ocorrer em outubro de 2026.

O processo tramita na Inglaterra porque a BHP era listada na Bolsa de Londres à época do desastre, permitindo que as vítimas buscassem reparação naquela jurisdição

Caso

O rompimento da barragem de Fundão ocorreu em novembro de 2015, liberando milhões de toneladas de rejeitos ao longo da bacia do Rio Doce e produzindo impactos socioambientais de larga escala. A ação tramita no Reino Unido porque a BHP, acionista da Samarco à época, era listada na Bolsa de Londres, o que permitiu que os reclamantes buscassem responsabilização também pela via da jurisdição inglesa.






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