Por Pedro Henrique Silva
A transição energética e a descarbonização criaram um paradoxo que a indústria mineral precisa enfrentar: ao mesmo tempo em que a sociedade demanda uma economia de baixo carbono, novas tecnologias e fontes mais limpas de energia, ainda existe resistência à expansão da atividade responsável pelo fornecimento de grande parte das matérias-primas necessárias para essa transformação.
A avaliação é de Thiago Toscano, CEO da Itaminas, que participou, durante a Exposibram 2026, em Belo Horizonte, do painel “Discussão de mercado das principais empresas brasileiras – minério de ferro, cobre e ouro”.
“A sociedade quer mais descarbonização, mais transição energética, mas ela não quer mais mineração. Essas duas coisas não têm como acontecer sem a mineração”, afirmou Toscano.
Para o executivo, um dos grandes desafios da indústria mineral é justamente mostrar à sociedade a importância da mineração dentro das transformações econômicas e tecnológicas em curso no mundo.
“A gente tem um desafio institucional de mostrar a importância da mineração dentro dessa agenda da descarbonização e da transição energética”, disse.
Na avaliação de Toscano, essa comunicação não pode ficar restrita somente a grandes mineradoras. Precisa se tornar uma agenda compartilhada pela indústria mineral, aproximando a atividade das tecnologias que estão redesenhando a economia mundial.
Mineração precisa se conectar ao “novo mundo”
Para o CEO da Itaminas, a mineração continuará submetida aos tradicionais ciclos de alta e baixa das commodities. O que mudou é o ambiente no qual esses ciclos estão ocorrendo.
Inteligência artificial e a expansão dos data centers aumentaram a necessidade de minerais e criam uma oportunidade para que o setor mostre de maneira mais clara sua participação na construção dessa nova economia.
“A mineração vai continuar sendo formada por ciclos, altas e baixas, mas vai sobreviver no longo prazo. Agora em um contexto novo: descarbonização, transição energética, data centers. Isso é uma grande oportunidade para a mineração começar a colar sua imagem nessas tecnologias que estão moldando o mundo novo”, afirmou.
Para Toscano, o setor precisa superar uma falsa oposição entre mineração e sustentabilidade. “Temos que trazer a sociedade para dentro desse debate para não vivermos mais numa dicotomia entre sustentabilidade e mineração. As duas coisas podem conviver.”
Uma das iniciativas adotadas pela Itaminas foi a criação do projeto Mundo sem Mineração, que apresenta como os minerais fazem parte cotidiano e na economia. mundosemmineracao.com.br/
Para ele, os investimentos realizados pela Itaminas com o objetivo de estabelecer maior conexão com a sociedade é um passo importante para potencializar o diálogo entre comunidades e possibilitando o enfrentamento de desafios setoriais em conjunto.
Plano de dez anos
A estratégia de comunicação acompanha um movimento de transformação operacional da própria companhia.
Segundo Toscano, a Itaminas está no segundo ano de execução de um plano de dez anos que prevê investimentos na adequação da planta, incorporação de novas tecnologias, aumento da produção e melhoria da qualidade do minério.
“A gente tem um plano de dez anos, já há dois em implementação, justamente para fazer a adequação da planta, realizar novos investimentos em tecnologia, melhorar a qualidade do minério e aumentar a produção”, afirmou.
O objetivo, segundo o executivo, é posicionar a companhia para aproveitar a agenda global de descarbonização e, ao mesmo tempo, reduzir sua exposição às oscilações dos ciclos das commodities.
Toscano também defendeu uma gestão “ambidestra” nas empresas de mineração: capaz de manter eficiência, rentabilidade e geração de caixa no presente enquanto se prepara para transformações tecnológicas e de mercado de longo prazo.
Para ele, custo continua sendo um elemento fundamental de competitividade, mas a capacidade de inovar, estabelecer parcerias e incorporar novas soluções também será determinante.

Executivos apontam para um cenário onde indústria mineral que continuará convivendo com ciclos de preços e necessidade intensiva de para desenvolvimento dos projetos,
Brasil mantém vantagens competitivas
Já Carlos Mello, CEO da CSN afirmou que o Brasil continua competitivo mesmo diante dos desafios globais e ressaltou a necessidade de decisões estratégicas diante dos longos ciclos de investimento da mineração.
“Estamos vivendo um momento de transformação que visa descarbonizar a cadeia produtiva. Mesmo com desafios globais, o Brasil segue, sim, sendo competitivo”, afirmou.
Segundo Mello, a mineração é uma atividade intensiva em capital, com necessidade permanente de recursos para equipamentos, renovação de frotas e incorporação de tecnologias. Nesse contexto, o reprocessamento de materiais considerados estéreis pode, em determinadas situações, ser economicamente mais vantajoso e contribuir para a produção de minério de ferro de maior teor.
“Tecnologias para reaproveitamento mineral estão evoluindo para permitir produção mais eficiente com menos recursos”, disse.
Ouro e cobre reforçam perspectiva de queda
No mercado de ouro, Rodrigo Gomides, presidente da Kinross Brasil, destacou que a demanda permanece consistente e que o Brasil ainda possui reservas não exploradas ou mesmo desconhecidas.
Para ele, a indústria mineral também atravessa um processo de reconstrução de confiança junto à sociedade.
“O Brasil é um país consolidado frente a outros players globais. Temos que continuar melhorando. Nós temos capacidade de adaptação para crescer e continuar evoluindo. Queremos continuar conquistando confiança e influenciando essa indústria”, afirmou.
Antônio Schettino Gomes Pereira, diretor de Operações da mina Salobo, da Vale Metais Básicos, avaliou o cenário do cobre, que segundo ele, ainda é de forte demanda diante de uma oferta que ainda encontra dificuldades para acompanhar o crescimento do consumo.
O executivo comentou a perspectiva de produção de cobre da Vale avançar das atuais 330 mil toneladas para mais de 700 mil toneladas anuais em um horizonte de dez anos.
O cenário discutido pelos executivos aponta, portanto, para uma indústria que continuará convivendo com ciclos de preços, necessidade intensiva de capital e longos períodos de desenvolvimento dos projetos, mas que ganha uma nova fronteira de crescimento com a transformação da economia mundial.
Para Toscano, aproveitar essa oportunidade exigirá mais do que produzir minerais. Será necessário convencer a sociedade de que mineração, tecnologia e sustentabilidade não representam agendas concorrentes.
“Não podemos mais viver numa dicotomia entre sustentabilidade e mineração. As duas coisas podem conviver.”











