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Por Redação
A pesquisadora de geologia e professora chilena Irene Del Real afirmou durante o SIMEXMIN 2026 que os depósitos andinos do tipo IOCG (óxido de Ferro, cobre e ouro) representam um dos sistemas metalogenéticos mais complexos e promissores do mundo para exploração mineral. Segundo a palestrante internacional, novas pesquisas indicam que esses depósitos estão diretamente ligados à evolução tectônica dos Andes e à interação entre diferentes pulsos hidrotermais ao longo do tempo geológico.
Durante apresentação realizada nesta segunda-feira (18), Del Real destacou que os depósitos IOCG andinos se diferenciam dos sistemas mais antigos encontrados em regiões arqueanas e proterozoicas por sua forte associação com ambientes de subducção ativa no Mesozoico. A pesquisadora argumentou que a compreensão estrutural e tectônica desses sistemas tem se tornado fundamental para o avanço da exploração mineral na cordilheira.
“Não existe um modelo único que explique todos os depósitos IOCG do mundo”, afirmou a geóloga. “A geologia do Arqueano era completamente diferente da geologia do Mesozoico, mas ainda assim observamos depósitos semelhantes”, explicou.
O cinturão IOCG andino se estende do centro do Peru ao centro do Chile, concentrando alguns dos depósitos mais relevantes da América do Sul, como Mina Justa, Raul Condestable, Manto Verde e o distrito de Candelaria-Punta del Cobre.
Ela destacou ainda a importância do sistema de falhas de Atacama, estrutura com mais de mil quilômetros de extensão que controla espacialmente grande parte dos depósitos IOCG chilenos.
Geologia de Carajás reforça singularidade dos depósitos andinos
Durante a apresentação, Irene Del Real também estabeleceu comparações entre os depósitos IOCG andinos e os grandes sistemas minerais de Província Mineral de Carajás, uma das principais províncias metalogenéticas do mundo.
Segundo a geóloga, embora os depósitos apresentem características semelhantes — como enriquecimento em óxidos de ferro, cobre e ouro — existem diferenças fundamentais relacionadas ao contexto tectônico e à idade geológica dos sistemas. Enquanto os depósitos andinos foram formados em ambiente de subducção ativa durante o Mesozoico, os depósitos brasileiros possuem origem muito mais antiga, associada ao Arqueano e ao Proterozoico.

Irene Del Real apresentou a evolução geológica de depósitos andinos.
Del Real destacou que essa diferença temporal dificulta a criação de um modelo único para todos os depósitos IOCG globais. “A geologia do Arqueano era muito diferente da geologia do Mesozoico”, afirmou ao comparar os sistemas andinos aos de Carajás.
A pesquisadora ressaltou que os depósitos brasileiros estão entre os exemplos mais antigos desse tipo de mineralização no planeta, enquanto os andinos representam alguns dos mais jovens. Apesar disso, ela observou que ambos compartilham elementos essenciais, como forte controle estrutural, abundância de magnetita e hematita e potencial para hospedar minerais críticos, incluindo cobre, ouro, cobalto e elementos terras raras.
Depósitos podem conter minerais críticos, além de cobre e ouro
Embora sejam conhecidos principalmente pelo cobre e ouro, os depósitos IOCG também podem hospedar minerais considerados estratégicos para a transição energética e para tecnologias avançadas.
“Eles podem conter cobalto, níquel, urânio e elementos terras raras”, afirmou Del Real. “E, como o nome indica, são extremamente ricos em óxidos de ferro”, diz.
Segundo a geóloga, os sistemas IOCG possuem forte controle estrutural e nem sempre estão diretamente associados a intrusões ígneas, característica que os diferencia de depósitos do tipo pórfiro, predominantes na mineração chilena contemporânea.
Relação entre magnetismo e mineralização ainda gera debate
Outro ponto destacado na apresentação foi a relação entre magmatismo e mineralização nos depósitos IOCG. Embora diversos distritos apresentem intrusões ígneas contemporâneas aos depósitos minerais, Del Real afirmou que ainda não existe comprovação definitiva de que essas intrusões sejam diretamente responsáveis pela mineralização.
“Temos plutons ao lado da mineralização com a mesma idade, mas que não são mineralizados”, explicou. “Não conseguimos provar diretamente que eles sejam a fonte da mineralização, mas também não podemos ignorar essas coincidências.”
Pesquisas recentes conduzidas no distrito de Candelaria-Punta del Cobre indicam mudanças nas características geoquímicas do magmatismo ao longo do tempo, especialmente após cerca de 115 milhões de anos atrás, período associado aos principais eventos mineralizantes.
Novo modelo propõe evolução temporal dos depósitos
A parte central da palestra apresentou um novo modelo conceitual para os depósitos IOCG andinos. Segundo Del Real, evidências geoquímicas recentes sugerem que os depósitos de óxido de ferro-apatita (IOA) e os IOCG não representam necessariamente níveis verticais distintos de um mesmo sistema, mas sim estágios evolutivos ao longo do tempo.
A geóloga mostrou resultados obtidos a partir da química da actinolita — mineral comum nesses sistemas — que indicam mudanças progressivas de temperatura e composição dos fluidos mineralizantes.
“O relacionamento entre esses depósitos não é vertical. É temporal”, afirmou. “A sobreposição das alterações está diretamente relacionada ao tipo de mineralização que vamos encontrar.”
Segundo ela, eventos iniciais ricos em magnetita, actinolita e apatita podem evoluir posteriormente para estágios ricos em sulfetos e cobre, associados à mineralização IOCG principal.
Exploração mineral também ajuda a compreender tectônica andina
Del Real afirmou que o estudo econômico desses depósitos também contribui para o entendimento da evolução tectônica dos Andes.
“Eu sempre digo aos meus alunos que a geologia econômica também ajuda a entender a tectônica do país”, afirmou.
A pesquisadora defendeu que os depósitos IOCG devem ser interpretados como sistemas dinâmicos e evolutivos, e não apenas como conjuntos isolados de mineralizações sobrepostas.
“É importante entender esses depósitos como um sistema em evolução”, concluiu. “Não apenas como sistemas que se sobrepõem no espaço, mas como sistemas que evoluem ao longo do tempo”, afirma.












