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Por Redação
A reinterpretação geológica do depósito Viscaria, no norte da Suécia, marcou a apresentação do geólogo-chefe da Viscaria, Marcello Imanã, durante o Simexmin 2026. Em palestra sobre os avanços exploratórios na região de Kiruna, o especialista detalhou como o projeto deixou de ser tratado como um depósito vulcanogênico maciço de sulfetos (VMS) para se consolidar como um extenso sistema IOCG (Iron Oxide Copper Gold), associado a evaporitos e processos hidrotermais de alta temperatura.
“Cada depósito IOCG é diferente. Nós não estamos seguindo nenhum modelo”, afirmou Imanã logo no início da apresentação.
Segundo ele, a mudança de interpretação ocorreu após anos de estudos e campanhas intensivas de sondagem realizadas no entorno da famosa jazida de Kiruna, considerada um dos maiores depósitos de ferro do mundo. “Há seis anos, quando cheguei aqui, acreditávamos que isso era um depósito VMS. Existiam diferentes planos e diferentes estratégias. Mas, ao longo dos últimos cinco anos, percebemos que estávamos diante de um verdadeiro monstro geológico”, declarou.
Depósito fica ao lado de uma das maiores minas de ferro do planeta
O projeto Viscaria está localizado a cerca de um quilômetro do gigantesco depósito de Kiruna, cuja mineralização de magnetita de alto teor se estende por quase dois quilômetros de profundidade. A proximidade com a infraestrutura da cidade mineradora foi apontada como uma das vantagens estratégicas do empreendimento.
“Estamos acima do Círculo Polar Ártico, mas temos eletricidade, estradas, hospitais e toda a infraestrutura de uma cidade mineradora. É uma localização perfeita”, disse.
Imanã lembrou ainda que a própria cidade de Kiruna precisou ser deslocada em aproximadamente dois quilômetros devido ao avanço das atividades de mineração subterrânea e ao colapso progressivo causado pela lavra em cavernas.
Atualmente, segundo os dados apresentados, o depósito possui cerca de 110 milhões de toneladas de recursos, com teor próximo de 1% de cobre, além da recuperação de magnetita como subproduto. O projeto entrou em fase de construção da mina em 2026, impulsionado pela valorização internacional do cobre.
Descoberta começou com uma planta adaptada ao cobre
A origem da descoberta de Viscaria remonta à década de 1970 e envolveu um método geobotânico. O depósito foi identificado a partir da presença da planta Viscaria alpina, espécie capaz de crescer em solos enriquecidos em cobre.
“Ela vive muito feliz durante o verão em terrenos contaminados por cobre”, explicou o geólogo.
Posteriormente, a mineradora finlandesa Outokumpu colocou em operação uma pequena mina de alto teor no local. Para Imanã, esse enriquecimento inicial sempre indicou que o sistema possuía um potencial maior do que o inicialmente interpretado.
Evaporitos e domos de sal entram no centro do modelo geológico
Um dos principais pontos da apresentação foi a hipótese de que evaporitos proterozoicos tiveram papel decisivo na formação da mineralização. Segundo Imanã, a presença de sal e fluidos salinos extremamente quentes ajudou tanto na extração quanto na precipitação de metais.
“Hoje acreditamos que o sal desempenha um papel muito importante nesses riftes proterozoicos”, afirmou.
De acordo com ele, os fluidos hidrotermais circularam através de sequências sedimentares e vulcanoclásticas, explorando heterogeneidades estratigráficas e formando corpos mineralizados do tipo manto replacement. O sistema também apresenta intensa alteração albítica e abundância de minerais típicos de alta temperatura, como anfibólio, granada e magnetita.
“Quando observamos essa mineralogia de alta temperatura em uma região que não possui metamorfismo tão intenso, percebemos que aquilo não fazia sentido como simples recristalização metamórfica”, explicou.
Similaridades com depósitos do Peru ajudaram na nova interpretação
O geólogo peruano comparou Viscaria a depósitos IOCG conhecidos da costa peruana, especialmente Marcona e Mina Justa. Segundo ele, as semelhanças estruturais e mineralógicas ajudaram a redefinir o entendimento do sistema sueco.
“Eu disse ao meu chefe: no Peru existe uma mina chamada Marcona, com mais de um bilhão de toneladas de magnetita de alto teor. Bem ao lado dela está o depósito de cobre Mina Justa. Quando você compara as imagens, os padrões são muito parecidos”, relatou.
A partir dessa interpretação, a empresa expandiu significativamente suas áreas de concessão e aprofundou as campanhas exploratórias.
Exploração profunda revelou bornita, anidrita e aumento dos teores
Nos últimos anos, a empresa realizou cerca de 200 quilômetros de sondagem, inicialmente voltados aos estudos de viabilidade. Apenas 15% desse volume foi direcionado à exploração regional.
Segundo Imanã, as descobertas mais importantes vieram em profundidade, especialmente após a equipe insistir em continuar sondagens mesmo após interseções tectonicamente deformadas.
“Todos os furos falharam, exceto o último. Como sempre”, brincou.
Foi justamente nesse estágio que os geólogos encontraram zonas mais ricas em bornita e anidrita, indicando condições físico-químicas distintas das observadas próximas à superfície. Os teores passaram a atingir intervalos próximos de 2% a 2,5% de cobre.
“Na superfície víamos principalmente calcopirita. Em profundidade começamos a encontrar bornita. Isso transformou completamente o projeto”, afirmou.
Grafita mascarava sinais geofísicos do minério
Outro desafio apresentado envolveu a presença de camadas espessas de grafita, capazes de mascarar respostas geofísicas dos sulfetos mineralizados.
“O grafite absorve praticamente todo o sinal eletromagnético”, explicou.
Segundo ele, somente após identificar zonas onde o grafite havia sido destruído por intensa alteração albítica foi possível detectar condutores associados aos corpos mineralizados mais profundos.
A equipe também utilizou inversões magnéticas tridimensionais para mapear a transição entre pirrotita e magnetita ao longo do sistema.
Região concentra depósitos estratégicos para a transição energética
Além do cobre e do ferro, a região de Kiruna também abriga grandes concentrações de elementos terras raras associados à apatita, como no depósito Per Geijer, considerado atualmente o maior depósito conhecido de terras raras da Europa.
Para Imanã, o conjunto de depósitos da região demonstra a importância dos sistemas ricos em ferro, sal e fluidos oxidantes para a geração de mineralizações estratégicas.
“Estamos apenas começando a entender o tamanho real desse sistema”, concluiu.













