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Por Redação
A Província Mineral de Carajás, no sudeste do Pará, pode ter se formado de maneira muito diferente do que os modelos geológicos tradicionais sugeriam até então. Essa foi uma das principais conclusões apresentadas durante o Simexmin 2026 em uma pesquisa integrada financiada pela Vale, que reuniu dezenas de pesquisadores de universidades e instituições brasileiras e internacionais para investigar a evolução geodinâmica, metalogenética e geofísica da região.
Os estudos apontam que Carajás não surgiu a partir de colisões continentais clássicas, como defendiam modelos anteriores, mas sim de processos ligados à destruição de uma quilha litosférica — uma porção espessa e antiga da litosfera — associada a plumas mantélicas, riftes e intensa circulação de fluidos magmáticos em profundidade. Os resultados também identificaram novos eventos hidrotermais e períodos mineralizantes ainda não descritos, além de ampliarem a compreensão sobre os sistemas IOCG (Iron Oxide Copper Gold), um dos principais tipos de depósitos de cobre e ouro do mundo.
As apresentações foram conduzidas pelos pesquisadores Noevaldo Teixeira, do Serviço Geológico do Brasil (SGB); Lena Monteiro, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP); e Adalene M. Silva, da Universidade de Brasília (UnB). Os trabalhos integram um amplo projeto multidisciplinar apoiado pela Vale, envolvendo mais de 48 pesquisadores e milhares de análises isotópicas, geofísicas, geoquímicas e mineralógicas.
Nova interpretação geodinâmica de Carajás
Segundo Noevaldo Teixeira, coordenador da frente de geodinâmica do projeto, os dados obtidos desafiam diretamente interpretações uniformitaristas tradicionais sobre a evolução do Cráton Amazônico.
“Uma das primeiras conclusões desse projeto é que a visão uniformitarista dos processos evolutivos do Cráton Amazônico não atende aos fatos, sejam eles de campo, de isotopia, etc. Nós devemos definitivamente repensar o modelo geodinâmico do Cráton Amazônico”, afirmou.
De acordo com o pesquisador, os resultados de sísmica passiva e magnetotelúrica mostraram que a região de Carajás está associada a uma destruição litosférica de pelo menos 30 quilômetros de profundidade, além de apresentar intensa condutividade elétrica entre a crosta e o manto, evidência interpretada como resultado da circulação de grandes volumes de fluidos e magma
“O Magneto Telúrico mostrou que, subjacente a Carajás, a litosfera é absolutamente condutiva, totalmente distinta da litosfera subjacente aos terrenos TTG do Rio Maria. Isso significa que, da crosta até o manto, em torno de 100 quilômetros, você teve passagem de fluidos e magma em uma intensidade muito maior do que qualquer outro segmento geotectônico do Cráton Amazônico”, explicou.
Outro resultado destacado pelo pesquisador foi a ausência de evidências geofísicas para colisões continentais ao norte e ao sul de Carajás, hipótese tradicionalmente utilizada para explicar a evolução tectônica da região.
“Não há colisão continental ao sul ou ao norte de Carajás. Os modelos apresentados não têm sustentabilidade nos dados de geofísica”, declarou.
Três grandes pulsos mineralizantes
Os trabalhos também identificaram que os principais depósitos IOCG de Carajás estão associados a três pulsos distintos de magmatismo bimodal ocorridos em aproximadamente 2,74 bilhões, 2,68 bilhões e 2,55 bilhões de anos atrás.
Segundo Noevaldo Teixeira, essa interpretação altera a visão de que Carajás teria sido formada por um único grande evento magmático.
“Carajás não é um só pulso basáltico. São três pulsos basálticos, são três pulsos de magmatismo bimodal”, afirmou.
Os pesquisadores também relacionaram esses eventos a processos de abertura e inversão tectônica da bacia de Carajás, associados à circulação de fluidos mineralizantes que favoreceram a formação dos depósitos de cobre e ouro.
Novos eventos hidrotermais ampliam complexidade da província
A pesquisadora Lena Monteiro destacou que o projeto permitiu ampliar significativamente a base de dados disponível sobre Carajás, com volume de análises superior ao acumulado em décadas de estudos anteriores.
“Esse trabalho possibilitou aquisição de dados que mais que duplicam ou triplicam tudo que foi acumulado ao longo de cinquenta anos de história de pesquisa em Carajás”, afirmou.
Segundo ela, um dos avanços do estudo foi a identificação de eventos hidrotermais ainda não descritos anteriormente, além da comprovação de múltiplas sobreposições mineralizantes em diferentes depósitos.

Lena Monteiro destacou a sobreposição de múltiplos eventos hidrotermais nos depósitos de cobre e ouro de Carajás.
“Temos uma sobreposição incrível de eventos. Essa é a criatividade de Carajás”, disse.
Os estudos mostraram que minerais como apatita e titanita preservam registros de diferentes fases hidrotermais ocorridas ao longo da evolução da província. Em alguns casos, um único cristal apresentou evidências de múltiplos eventos geológicos com bilhões de anos de diferença.
A pesquisadora também destacou a identificação de assinaturas geoquímicas associadas à desgaseificação de fluidos mantélicos ricos em CO₂, relacionadas aos maiores depósitos da região.
“Os maiores depósitos têm essa característica química associada à desgaseificação de fluidos mantélicos ligados a eventos de transtensão importantes para a formação dos grandes depósitos”, explicou.
Integração entre geofísica, geoquímica e mapeamento mineral
A terceira frente do projeto, apresentada por Adalene M. Silva, concentrou-se no uso integrado de petrofísica, geoquímica e mapeamento mineral para compreender como os fluidos hidrotermais alteram as propriedades físicas das rochas e influenciam a resposta geofísica dos depósitos minerais.
Segundo a pesquisadora, a complexidade dos sistemas IOCG exige abordagens multiescala e integração de diferentes métodos analíticos.
“O entendimento dessas anomalias vai depender cada vez mais do entendimento de como esses fluidos alteram as propriedades físicas das rochas”, afirmou.

Adalene M. Silva mostrou como petrofísica e geoquímica ajudam a identificar sistemas IOCG complexos em Carajás.
Os pesquisadores utilizaram técnicas como escaneamento hiperespectral, mineralogia automatizada, geoquímica mineral e integração com dados geofísicos para mapear alterações hidrotermais associadas à mineralização.
Os estudos mostraram que determinadas associações minerais podem funcionar como vetores para exploração mineral, permitindo identificar zonas mineralizadas mesmo em sistemas considerados “cegos”, sem expressão superficial evidente.
“É possível mapear todo esse processo com a mineralogia e associar isso às propriedades físicas e à geoquímica”, explicou Adalene.
Cooperação entre universidades e indústria
Além dos resultados científicos, os pesquisadores destacaram a dimensão colaborativa do projeto, que envolveu universidades, Serviço Geológico do Brasil, laboratórios internacionais e equipes técnicas da Vale.
“Foi um projeto extremamente complexo de administrar, com mais de 48 pesquisadores”, destacou Noevaldo Teixeira.
Lena Monteiro também ressaltou a importância da integração entre academia e indústria mineral.
“A gente teve um apoio incrível da Vale, não só pelo fomento e realização de análises, mas também pelo empenho pessoal das equipes”, afirmou.
Segundo os pesquisadores, os dados gerados devem contribuir tanto para o avanço do conhecimento sobre a evolução do Cráton Amazônico quanto para o desenvolvimento de novas estratégias de exploração mineral em Carajás e em outras províncias metalogenéticas do mundo.













