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Por Felipe Tavares
Geólogo especialista em urânio e estrategista de projetos
O Brasil fala há décadas sobre seu potencial uranífero. A frase é verdadeira, mas incompleta.
Há recurso, conhecimento acumulado e províncias conhecidas. Há domínio tecnológico relevante em etapas importantes do ciclo do combustível nuclear. Há demanda interna. Há interesse internacional. Há uma janela estratégica aberta pela transição energética, pela necessidade de energia firme e pela reorganização global das cadeias de minerais críticos.
Mas recurso não é reserva, muito menos projeto. E projeto não é produção.
A última versão do Red Book, publicada em 2025 pela OECD/NEA e pela AIEA, coloca o Brasil entre os países com maiores recursos uraníferos reportados. Considerando recursos identificados in situ, o país aparece com cerca de 250 mil toneladas de urânio, equivalentes a aproximadamente 295 mil toneladas de U3O8.
É uma base geológica expressiva. Mas recurso in situ não é minério lavrável, menos ainda projeto financiável, e não é concentrado de urânio disponível para fabricar combustível nuclear para as usinas de Angra.
Grande parte desse potencial foi descoberta ou delineada há décadas, principalmente entre os anos 1970 e 1980. Desde então, o Brasil produziu apenas alguns milhares de toneladas de urânio. Segundo o Red Book, a produção histórica brasileira acumulada até o fim de 2022 foi de 4.329 toneladas de urânio, algo próximo de 5.100 toneladas de U3O8.
Para um país que reporta quase 300 mil toneladas de U3O8 em recursos identificados in situ, o contraste é evidente.
A comparação com a demanda interna torna o quadro ainda mais claro. Angra 1 requer cerca de 140 toneladas de urânio por ano. Angra 2 requer cerca de 246 toneladas por ano. Desde a entrada em operação comercial de Angra 1, em 1985, e de Angra 2, em 2001, a demanda acumulada brasileira por urânio natural já passou da casa de 13 mil toneladas de U3O8.
A produção nacional acumulada ficou muito abaixo disso. A diferença, da ordem de quase 8 mil toneladas de U3O8, precisou ser coberta por compras no mercado internacional.
Esse dado não deve ser lido como acusação, mas como diagnóstico.
O Brasil passou décadas sentado sobre recursos uraníferos relevantes enquanto seguia dependendo do exterior para suprir parte importante de sua própria cadeia nuclear. A baixa execução do urânio brasileiro é produto de uma arquitetura institucional que concentrou responsabilidades demais, abriu pouco espaço para capital, anulou a competição, limitou a pressão por performance, dificultou a integração regulatória e deixou o setor preso entre ambição estratégica e baixa capacidade de entrega.
Essa diferença entre potencial e execução é o ponto central. O Brasil não carece apenas de uma nova mina. Carece de um caminho completo para transformar ocorrência em depósito, depósito em projeto, recurso em reserva, projeto em operação e operação em cadeia de valor.
Esse caminho começa pela geologia. Poucas pessoas conhecem de fato as principais mineralizações uraníferas brasileiras. Menos ainda visitaram, estudaram e reconheceram seus sistemas mineralizantes e suas particularidades regionais. Falar de urânio no Brasil apenas por número agregado de recurso é insuficiente. Cada área tem sua geologia, mineralogia, teor, metalurgia, hidrogeologia, riscos radiológicos, condicionantes ambientais e lógica econômica.
Urânio exige conhecimento técnico específico. Exige geologia, mineração, radioproteção, salvaguardas, licenciamento ambiental, licenciamento nuclear, rastreabilidade de material, governança estatal e estratégia de mercado. Exige também compreensão da percepção pública. A palavra urânio carrega um peso simbólico que nenhum outro minério carrega da mesma forma.
Por isso, o setor só avançará quando conseguir adotar as melhores práticas do mercado. Não basta ter recurso. Será necessário apresentar projetos com dados robustos, estimativas confiáveis, estudos metalúrgicos consistentes, planos de lavra realistas, baseline ambiental e radiológico bem construído, fechamento de mina projetado desde o início, governança de riscos, transparência e engajamento qualificado com comunidades.
Também será necessário completar a arquitetura institucional.
A Lei 14.514/2022 abriu caminho para a participação privada em associação com a INB. Mas a legislação, sozinha, não resolve o problema. O país precisa de regulação coerente, completa e operacional. Precisa definir com clareza os papéis de INB, ENBPar, MME, BNDES, ANM, CNEN/ANSN, Ibama e demais órgãos envolvidos. Precisa de regras previsíveis para a INB realizar parcerias com o setor privado, precisa de clareza de procedimentos e garantias para quem reportar ocorrências em direitos minerários de terceiros, para estruturas societárias, para comercialização, para controle de material nuclear e para responsabilidades ambientais e radiológicas.
A ANM, apesar de central para a mineração brasileira, ainda aparece de forma periférica na arquitetura prática da exploração e lavra de urânio. Esse é um problema. O urânio tem especificidades nucleares evidentes, mas continua sendo também um projeto mineral. Hoje, o Código de Mineração é lacônico em relação aos minérios nucleares e ao seu regime de aproveitamento.
Um ponto é especialmente sensível: a abertura ao setor privado precisa respeitar o direito de prioridade que estrutura a mineração brasileira. Se uma ocorrência de urânio estiver em área já titulada para outra substância, o caminho deve passar pelo titular daquele direito minerário, com anuência e colaboração com a INB. Sem isso, o ganho regulatório do urânio poderia produzir insegurança jurídica para todo o setor mineral.
Sem linguagem mineral moderna, sem critérios claros de pesquisa, sem padrões de reporte, sem respeito ao direito de prioridade, sem segurança jurídica e sem integração institucional, o setor continuará estagnado.
Caetité mostra bem essa tensão. O Brasil opera, mas opera abaixo da ambição que declara. A capacidade nominal frequentemente citada para a unidade é da ordem de 400 t U3O8 por ano. Na prática, a produção recente ficou distante dessa escala, ao redor de 100 t por ano. A frente de lavra atual, no corpo Engenho, tem limitações de teor, escala e eficiência econômica, sendo insuficiente para cobrir a demanda atual, que tende a crescer com Angra 3 e projetos futuros de SMRs e MMRs.
Santa Quitéria simboliza outra dimensão do mesmo problema. Trata-se de um projeto estratégico, associado a fosfato e urânio, com potencial para contribuir simultaneamente para fertilizantes, energia e segurança nacional. Mesmo assim, permanece há anos sem sair do papel. O caso mostra que o Brasil ainda tem dificuldade de transformar projetos estratégicos em decisões públicas proporcionais, tecnicamente robustas e socialmente legitimadas.
O momento atual é diferente porque várias forças estão se encontrando ao mesmo tempo.
A demanda por energia firme tende a crescer. A expansão das renováveis aumenta a importância de fontes capazes de complementar o sistema com estabilidade. A eletrificação da economia, a expansão de data centers e a pressão por segurança energética tornam o debate nuclear mais central. Ao mesmo tempo, minerais estratégicos estão no tabuleiro da geopolítica. Fertilizantes, urânio, terras raras, lítio, cobre e outros recursos deixaram de ser apenas temas setoriais, para se tornarem temas de resiliência nacional.
O Brasil precisa decidir se quer apenas continuar dizendo que tem urânio ou se quer construir um setor mineiro-nuclear real.
Construir esse setor exige mobilização política setorial, instituições funcionais, regulação clara, licenciamento rigoroso, abertura responsável ao capital privado, competência técnica e melhores práticas de mercado. Exige também honestidade pública. A sociedade precisa entender o que é risco radiológico, o que é monitorável, o que é regulável e o que é mito. Comunidades precisam ser tratadas com respeito, informação e garantias. Projetos precisam nascer com fechamento de mina, redução de danos, transparência e responsabilidade com comunidades e territórios.
O urânio brasileiro não será destravado apenas por decreto. Tampouco será destravado apenas por interesse de mercado. Ele exigirá estratégia. Para saber quais recursos merecem prioridade, para atrair capital e tecnologia sem perder controle público sobre material nuclear, para integrar mineração, ciclo do combustível, energia, território e desenvolvimento regional de forma responsável.
Estratégia para transformar recurso geológico em projeto executável.
O Brasil tem urânio. Precisamos desenvolver a capacidade de transformar esse potencial em produção responsável e competitiva. Sem isso, continuaremos ricos em recurso e pobres em execução.













