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Por Warley Pereira
Para Lucas Kallas, o mundo não é dividido por fusos horários, mas por oportunidades. No ano passado, o empresário mineiro — torcedor do Cruzeiro e de raízes libanesas — passou apenas três meses em solo brasileiro. Os outros nove meses foram consumidos por uma agenda frenética que incluiu 17 países e 540 horas de voo para conhecer oportunidades de negócios na Ásia, África, Europa e América Latina.
Ele visitou países como Venezuela, Marrocos, Catar, Austrália, Japão, China, Estados Unidos, Inglaterra, Emirados Árabes, Arábia Saudita e Iraque, prospectando negócios para seu grupo empresarial, que atua nos setores de mineração, agronegócio, energia, imobiliário e logística. “Cobra que não anda não engole sapo”, resume Kallas, com o pragmatismo de quem sabe que, no mercado de commodities, a inércia é o maior custo.
Kallas não se encaixa no perfil do executivo de gabinete. “Sou um empreendedor de mão na massa”, diz. Essa característica ficou evidente quando, em uma viagem aos Estados Unidos, soube de uma tecnologia de correias transportadoras de longa distância (TCLD) sendo testada no Alabama. No dia seguinte, estava lá, observando o maquinário.
De volta ao Brasil, planejou verticalizar a logística do segmento de mineração para consolidar uma operação sustentável, projetando a construção de um corredor de transporte de minério de 19 quilômetros com TCLD para ligar a mina de Mariana ao terminal ferroviário da Vale. A obra, que deve levar cerca de 24 meses para ser concluída, visa reduzir custos logísticos, diminuir o consumo de energia e proporcionar uma redução significativa nas emissões de carbono, integrando-se à malha ferroviária para a retirada de milhares de carretas das rodovias diariamente.
Brasil é uma escola
Um bom exemplo dessa prospecção global é a Venezuela, onde Kallas esteve em 2023 para conhecer as possibilidades nos setores de mineração e energia. Embora essa fase de avaliação de oportunidades tenha sido pausada, o país segue no radar. Para ele, a Venezuela é um ativo de valor reprimido que, dentro da legalidade e do tempo geopolítico certo, representa uma oportunidade para expansão internacional da Cedro Participações.
Kallas avalia que o potencial mineral da Venezuela pode ser aproveitado pela hidrovia do rio Orinoco, que confere uma vantagem competitiva de escoamento via Caribe para conectar a produção aos mercados globais. “Estamos olhando e avaliando. Não dá pra entrar no escuro”, afirma.
“Quem ganha dinheiro no Brasil, ganha em qualquer lugar do mundo”, sentencia, referindo-se à resiliência necessária para lidar com o “Custo Brasil” e a morosidade regulatória e ambiental. Essa musculatura desenvolvida domesticamente é o que dá confiança para o grupo buscar parcerias internacionais.
O Próximo Salto
O plano de voo para a próxima década está traçado. O objetivo de colocar a Cedro entre as três maiores mineradoras do país passa, obrigatoriamente, pela independência logística — com porto e ferrovia próprios — e pelo reconhecimento da marca em centros financeiros do mundo.
Kallas não quer apenas extrair minério; ele quer exportar um modelo de gestão que combina o apetite de risco de nomes como Elon Musk e Richard Branson com a sobriedade operacional necessária para sobreviver a ciclos de commodities. Para ele, o “mar calmo nunca fez bom marinheiro”. A meta é navegar em águas globais, onde a complexidade é maior, mas o prêmio para quem tem “mão na massa” é proporcional ao risco.
Nos próximos cinco anos, a Cedro planeja saltar da atual produção de 8 milhões de toneladas para 25 milhões. Para isso, Kallas está verticalizando a empresa, posicionando-a na vanguarda da descarbonização siderúrgica. Sua aposta estratégica é o pellet feed, um minério de ferro de altíssima pureza que permite às siderúrgicas operarem sob o rigor do selo ESG, reduzindo significativamente as emissões de carbono na fabricação do aço — o chamado “minério verde”.
Kallas sabe que o mercado está mudando. Para ele, quem dominar a produção sustentável agora não apenas sairá na frente na corrida global, mas garantirá a perenidade do negócio.
“O minério é uma commodity muito volátil, e eu acho que cada vez vai ter mais prêmio para esse minério verde, mais sustentável. Quem estiver nos próximos anos bem colocado nessa questão do pellet feed, vai sair na frente e vai gerar muito valor para sua empresa”
Lucas Kallas – Cedro Participações
Legado
Com mais de R$ 80 milhões investidos em projetos sociais recentes, o grupo Cedro mantém a maior creche privada de Minas Gerais e apoia desde equoterapia em Mariana até a revitalização de igrejas históricas. Para Kallas, o lucro é um meio; o legado é o fim. Hoje a Cedro conta com cerca de 60 projetos ativos, incluindo campos de futebol, praças e postos de saúde para garantir qualidade de vida às comunidades próximas à operação.

Olhar social da Cedro busca deixar um legado para comunidades próximas a operação da empresa.
Atrás da imagem do CEO que transita entre o Oriente Médio e a Ásia com facilidade, existe um homem low profile, casado há 24 anos e pai de três filhos, que admite que a rotina nômade cobra seu preço no convívio familiar. Seu refúgio — ou “spa”, como a esposa brinca — é o tempo que passa com a família nos Estados Unidos, o único lugar onde o ritmo de 14 horas de trabalho diário encontra uma breve pausa para recarregar.
No tabuleiro da geopolítica mineral, onde a Venezuela volta ao radar e o Oriente Médio busca parcerias no Brasil, Lucas Kallas se move como um marinheiro em mar revolto. Para ele, a crise não é um sinal de pare, mas o momento exato em que os amadores saem de cena e os resilientes consolidam seus negócios.













