Por Paulo Vilas Boas
O minério está no subsolo, mas a confiança ainda precisa ser extraída. Foi essa a ideia que atravessou o painel sobre o desenvolvimento do mercado de capitais para a mineração durante a terceira edição do Invest Mining Summit.
Mediados por Leonardo Resende, superintendente de empresas e mercado de capitais da B3, Andrea Weinberg (Lazuli Binah), Edwin Neves (BTG), Vitor Ornelas (Regia Capital) e Gabriel Sacardo (Starboard), montaram, a partir de cadeiras diferentes, peça por peça, um mesmo diagnóstico.
Vitor Ornelas abriu o raciocínio pelo mapa-múndi. Segundo ele, o debate sobre minerais críticos nasceu com a eletrificação das frotas chinesas e ganhou urgência com a guerra comercial entre Estados Unidos e China, dona de todas as etapas dessas cadeias. A resposta de vários países foi criar fundos especializados. “No Brasil, o BNDES assumiu o posto de investidor âncora, e a presença dele facilitou a vida de quem vinha depois, pois a tese, em si, é sedutora pois a demanda por minerais críticos é crescente”, completou.
A fala de Gabriel Sacardo soa como o outro lado dessa moeda. Se o cenário externo escancarou a janela, o mercado local ainda a observa com pouca intimidade: as oportunidades pedem atenção redobrada, e a carência de especialistas esconde, paradoxalmente, boas chances de retorno.
A fala do executivo da Regia Capital ajuda a explicar por que vale a pena tanto esforço, ao lembrar que o Brasil reúne os projetos pré-operacionais mais adiantados do mundo, num ambiente regulatório que melhorou ao longo das décadas.
Maior estruturação
Entre a promessa e o dinheiro, porém, há um vão, e Edwin Neves o descreveu com precisão de banqueiro. “Muitas empresas chegam ao BTG sem informações estruturadas e padronizadas, e as instituições financeiras brasileiras estão habituadas a atender gigantes. Resultado: os projetos mais jovens, justamente os que mais carecem de socorro, ficam desamparados”. O desafio, nas palavras dele, é financiá-los ainda imaturos, aceitando um risco superior.

BNDES assumiu o posto de investidor âncora, diz executivo da Regia Capital
Aqui a tese de Ornelas encontra a de Neves. A âncora pública reduz a complexidade de atrair parceiros, mas alguém precisa preparar os projetos para ser escolhidos. Sacardo completa a equação ao lembrar que não existe ganho elevado sem exposição ao risco, embora haja diversas formas de atenuá-lo. “Para quebrar o ciclo de falta de crédito, o mercado de capitais terá de estudar o setor com mais profundidade”, afirmou o diretor da Starboard.
Previsibilidade x Estimativa
O obstáculo mais curioso, contudo, mora na cultura do investidor. Neves diagnosticou um aplicador brasileiro “viciado em previsibilidade”, enquanto a mineração trabalha com estimativas, termos técnicos e incerteza. É um choque de temperamentos: de um lado, quem quer garantias; do outro, uma atividade cujo ciclo é naturalmente longo.
Andrea Weinberg retomou exatamente esse relógio. Para ela, convencer o investidor a aceitar o risco levará o mesmo tempo que o ciclo mineral, ainda mais num mercado de terras raras cuja dinâmica é inteiramente outra. “A saída é persistir na educação dos investidores, tanto de institucionais quanto de pessoas físicas. Os fundos têm um papel importante, pois servem de elo entre projetos e capital. Outro ponto é que informações valiosas discutidas aqui nem sempre atravessam a fronteira. Ou seja, o trabalho pedagógico precisa funcionar nas duas direções”, avaliou.
Esse horizonte dilatado não impede os painelistas de fazer contas. O fundo da Lazuli Binah, ainda em formação, mirará empresas juniores, e Andrea citou um dado para justificar a espera: a mineração responde por cerca de 3% do PIB e poderia crescer 5% ao ano, o que a converteria em fonte expressiva de expansão econômica. Sua meta para 2030 é concreta: aportes em até sete companhias e, pelo menos, duas já fora da prancheta.
Ornelas enxerga nessa meta o tipo de combustível que o setor precisa. Cada operação bem-sucedida funciona como prova de conceito e atrai o interessado seguinte, de modo que a reputação do segmento se constrói caso a caso. Quando afirma que a liquidez chegará à Bolsa brasileira, ele aposta justamente nesse efeito multiplicador.

Muitas empresas chegam ao BTG sem informações estruturadas e padronizadas
Exercício de paciência
A rodada final devolveu ao tema a questão do papel de cada ator. Neves pediu que o país corra atrás das boas oportunidades e facilite o caminho para que prosperem, algo que beneficiaria o crescimento nacional. Sacardo foi além e dividiu a tarefa: ao governo, cabe financiar e regular; à iniciativa privada, enxergar nessa janela a chance de um retorno robusto adiante. É a mesma lógica que o apoio do BNDES, citado por Ornelas, já ilustrou na prática.
Das quatro falas surge um enredo coerente. A geopolítica abriu a porta, o Estado fez o primeiro aporte, a educação prepara quem financia, a informação organizada é um atrativo a mais para o mercado. E os casos de sucesso, quando vierem, cuidarão do resto. Falta, como lembraram todos, uma virtude pouco comum nos mercados: a paciência.













