Artigo por Fernanda de Araujo Nunes¹
Sábado, 03 de janeiro de 2026. O mundo acordou com a notícia de intervenção dos Estados Unidos na Venezuela e a “captura” de seu então presidente, Nicolás Maduro. Entre os objetivos declarados, um se destacou: o interesse em controlar a Venezuela e sua indústria do petróleo. Mas por que, em 2026, diante da escalada da transição energética e da corrida pelas terras raras, o mundo deixou automaticamente de se perguntar “onde estão as terras raras?” Para voltar a se perguntar “quanto custa o barril de petróleo?”
Esse é um paradoxo que se evidenciou nos últimos dias e que indica quem ainda coloca em xeque as relações e aspirações no tabuleiro mundial. Mas até que ponto o petróleo ainda dita a economia e a geopolítica internacional?
Como se sabe, nos últimos anos, os debates públicos foram no caminho de superação do petróleo como fonte de energia, de forma progressiva e inevitável, com a sua substituição por fontes renováveis e pela estratégia das chamadas terras raras e demais minerais críticos. O petróleo, nesse discurso, passaria a ocupar um papel residual.
No entanto, bastou uma nova instabilidade política entre Estados Unidos e Venezuela para que o discurso global sofresse um impacto imediato. O foco saiu das terras raras, da transição energética e da descarbonização, e retornou, automaticamente, ao petróleo, ao preço do barril, à segurança do abastecimento e aos impactos inflacionários ao redor do mundo.
Nesse cenário, a corrida pelas terras raras existe e é relevante, mas ainda opera predominantemente no plano estratégico e prospectivo. Esses minerais são, sem dúvida, fundamentais para tecnologias avançadas e para o futuro da transição energética. Na prática, porém, não sustentam, sozinhos, cadeias produtivas inteiras nem oferecem a segurança energética imediata que o petróleo ainda garante. Tampouco funcionam como termômetro instantâneo da economia global, tampouco possuem mercados líquidos, infraestrutura consolidada e capacidade de resposta rápida a choques sistêmicos. O resultado dessa corrida ainda tem sido um curioso “quadro de medalhas” geopolítico: países disputam liderança verde, investimentos simbólicos e protagonismo narrativo, enquanto continuam dependentes do petróleo para manter suas economias funcionando. Isto é: a transição energética avança, mas sem substituir o eixo central do sistema.
O petróleo, ao contrário, reúne características que explicam seu persistente protagonismo. Ele influencia diretamente inflação, câmbio, contas públicas, crescimento econômico e estabilidade social. Possui governança internacional construída ao longo de décadas, logística integrada e ampla previsibilidade. Além disso, há um paradoxo adicional frequentemente ignorado: a própria transição energética depende estruturalmente do petróleo, seja como matéria-prima industrial, seja como insumo logístico essencial para a infraestrutura que viabiliza as fontes renováveis.
À luz dos acontecimentos recentes, o petróleo segue como o principal fator de estabilização macroeconômica do sistema mundial. Enquanto as terras raras são essenciais para tecnologias futuras, o petróleo permanece como o insumo que sustenta o presente, com capacidade imediata de resposta a choques de oferta e impacto direto sobre os mercados globais. A transição energética, nesse contexto, revela-se menos disruptiva do que o discurso sugere e muito mais próxima de um processo de reorganização gradual.
Esse cenário evidencia que o debate sobre a transição energética, embora necessário e cada vez mais presente nas agendas globais, ainda convive com a força estrutural do petróleo nas decisões econômicas e políticas do mundo real. O contraste entre o discurso de inovação e a reação imediata aos choques do mercado de petróleo revela que, apesar dos avanços tecnológicos e da busca por alternativas sustentáveis, o sistema internacional ainda não está preparado para prescindir desse recurso como fator econômico de estabilidade.
É justamente nessa tensão entre o desejo de mudança e a realidade das dependências atuais que se manifesta o paradoxo energético do nosso tempo: enquanto o futuro se projeta a partir de minerais críticos e novas tecnologias, o presente — e suas crises — ainda é resolvido com petróleo.
A reflexão sobre a pergunta inicial, portanto, impõe-se com realismo: o petróleo talvez já não dite sozinho o futuro da energia, mas continua ditando o ritmo da economia mundial. Enquanto crises globais forem resolvidas com base no preço do barril e na segurança do abastecimento, o petróleo seguirá ocupando posição central no tabuleiro geopolítico. E reconhecer isso não é negar a transição energética, mas compreendê-la de forma mais honesta, responsável e alinhada à realidade, especialmente se considerar o petróleo como meio para viabilizar a própria transição e aproveitamento das terras raras e minerais críticos tão almejados.
¹Graduada em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e pós-graduada em Direito da Mineração pelo Centro de Estudos em Direitos e Negócios (CEDIN). Advogada com atuação em Direito Minerário consultivo e contencioso administrativo.
Fernanda de Araujo Nunes. Advogada na William Freire Advogados Associados, na equipe especializada em Direito Minerário. Graduada em Direito pela PUC Minas, Pós-Graduada em Direito da Mineração pelo CEDIN – Centro de Estudos em Direito. Pós-Graduada em Direito da Proteção e Uso de Dados, pela PUC Minas, e Pós-Graduada em Direito Processual Civil pela Universidade FUMEC. Reconhecimento pela The Legal 500 Latin American, edição 2024, como advogada notável em “Minerário” e “Recursos Naturais e Regulação”.
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