Por Paulo Vilas Boas
O segundo painel do Invest Mining 2026 discutiu o tema “A mineração: quais são as oportunidades do setor para o Brasil?”. Joaquim Levy, diretor de Estratégia Econômica e Relações com Mercados do Banco Safra, para responder à pergunta, combinou panorama macroeconômico e visão de futuro para o setor mineral.
“Mineração é um setor muito estratégico, está presente na sociedade, e é tratado como um vilão”, afirmou. Para ele, o país tem a chance de viver uma revolução com participação da iniciativa privada, desde que avancem também as questões jurídicas, regulatórias e de decisão do Estado.
O executivo citou os novos desafios do setor, como a transição energética, soberania nacional e mudanças na cadeia de suprimentos. O desafio atual, segundo ele, é “empacotar” tudo isso e atrair novos investimentos, para sair da promessa e chegar à realidade.
A geopolítica, em sua avaliação, está hoje muito mais visível, e a mineração ganhou peso em um mundo de fricções e competição. Ele lembrou que, em 2024, há apenas dois anos, as terras raras eram um tema pouco conhecido. Hoje todos as conhecem, e até a expectativa sobre o tema é enorme.
Embora o setor mineral seja, por natureza, relativamente independente do cenário macroeconômico, ele argumentou que o tema importa para uma plateia voltada para o financiamento e relacionamento com investidores. Hoje há uma concorrência mundial por capital, e a presença do Brasil nesse mapa faz diferença.
Levy explicou que a situação fiscal dos EUA pode alterar o cenário financeiro global. O resultado primário americano registra déficit de 2,5% a 3%, sem perspectiva de mudança, além de um déficit da ordem de 6% ao ano. Segundo ele, isto sugere tendência de dólar alto, se os juros forem puxados por mais investimento, embora possa haver efeito negativo sobre o câmbio.
Ele também classificou como delicada a política monetária dos EUA. O investimento forte tem o contrapeso de um consumo precário e sustentado por uma queda na taxa de poupança das famílias, que não pode persistir. Para Levy, esse é um dos maiores riscos para a economia brasileira.
Ele afirmou que, no Brasil, a inflação converge devagar, com algum impacto da guerra sobre os preços do petróleo, e ainda há um caminho a percorrer. O executivo contestou a ideia de que a economia brasileira seja movida apenas por gasto público e consumo. Segundo ele, as exportações crescem mais rápido que o consumo, o que revela a vitalidade da economia. “Esse é um aspecto importante para o investidor estrangeiro”, observou.

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Degrau a degrau
A situação fiscal brasileira não destoa do resto do mundo, embora, de acordo com o executivo, esse é um ponto que precisa melhorar. “O resultado primário não é brilhante, mas está melhor que o de grande parte dos países”. O caminho, ele diz, é subir “degrau a degrau”, o que já está desenhado na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e no Orçamento, que ele reconhece como saudável e seguro.
O cenário econômico para o setor passou por uma mudança estrutural: o crédito direcionado do BNDES encolheu e a atuação do banco é muito diferente da de 15 anos atrás. Para o executivo, a situação é irreversível, já que o governo não tem como continuar expandindo esse tipo de crédito. “Todo mundo vai enfrentar a lei do mercado, seja olhando para o exterior ou para os recursos domésticos. Por isso, a queda dos juros é indispensável para que a economia continue rodando, e há uma força que empurra a política monetária brasileira para um patamar mais próximo do padrão mundial”, avaliou.
Avanço do setor
Levy afirmou que o quadro institucional da mineração se aprimorou ao longo de dez anos, com avanços regulatórios e de organização, sinal de amadurecimento e fonte de segurança jurídica. “O Plano Nacional de Mineração (PNM) até 2050 dá uma medida da ambição do setor, ao tratar da expectativa de crescimento, da participação da mineração no PIB, da capacidade de investimento em tecnologia e da ampliação da presença em minerais críticos e estratégicos”.
Ele acredita que, com diálogo entre governo, setor privado e Congresso, e um equilíbrio entre as partes, é possível enxergar boas notícias, tanto na dinamização da extração quanto no processamento. “Para quem vem do mundo do capital, chegar numa casa arrumada é algo extraordinário”, disse.
Joaquim Levy encerrou destaca a evolução do setor em dois anos, tanto pelo lado privado quanto pelo esforço do setor público e também do Congresso, na construção de bases sólidas. “Tenho a convicção de que o país está próximo de superar a questão fiscal, como já superou os problemas da inflação e da dívida externa. Quanto mais o setor puder contar com capital privado, mais a indústria mineral poderá crescer e distribuir seus benefícios para a população”, concluiu.














