Por Ricardo Lima
A expansão global das tecnologias de transição energética deve ampliar a demanda por minerais críticos até 2050 e aumentar os desafios para equilibrar oferta, consumo e segurança das cadeias de suprimento. A avaliação é da BloombergNEF (BNEF), divisão de pesquisa e análise da Bloomberg, apresentada nesta terça-feira (20) por Rafael Rabioglio, diretor da companhia para a América Latina, durante a terceira edição do Invest Mining Summit 2026. Entre os principais pontos do levantamento estão a perspectiva de desequilíbrio no mercado de cobre e a concentração do refino de minerais estratégicos na China.
Durante a apresentação A corrida global por metais da transição energética: oferta, demanda e cadeias de suprimento, Rabioglio destacou que os investimentos globais na transição energética atingiram US$ 2,3 trilhões em 2025, após se multiplicarem por 40 desde 2005. Segundo o executivo, o avanço de tecnologias como energia solar e eólica, veículos elétricos, baterias e redes elétricas deve sustentar a expansão do consumo de metais nas próximas décadas, embora as perspectivas de oferta variem conforme o material analisado.
Cobre concentra preocupação com a oferta
Entre os dez metais associados à transição energética avaliados pela BNEF, o cobre aparece como um dos principais pontos de atenção. Segundo Rabioglio, o mercado não registrou mudanças tecnológicas relevantes capazes de reduzir a demanda projetada nem avanços suficientes na expansão da extração para acompanhar o consumo esperado.
O cenário contrasta com o do lítio, cuja perspectiva de oferta melhorou após anúncios de novos projetos de mineração e o desenvolvimento de baterias que demandam menores quantidades de determinados materiais. “A grande pergunta que permanece é que preço tem que chegar o cobre para que você tenha um aumento na oferta desse material”, afirmou.
Brasil tem reservas, mas enfrenta desafios industriais
O Brasil reúne reservas relevantes de minerais estratégicos, incluindo grafite e terras raras, e pode ampliar sua participação no mercado com o crescimento da demanda global. Para Rabioglio, porém, a disponibilidade de recursos naturais não garante, por si só, competitividade industrial. No ranking da BNEF que avalia 30 mercados na cadeia de valor de fabricação de baterias, o país ocupa a 14ª posição, empatado com a Indonésia. A análise considera desde depósitos e extração até refino, inovação e fabricação, áreas em que o Brasil ainda precisa avançar.
O executivo também destacou a importância dos investimentos em infraestrutura para viabilizar a expansão da transição energética. A insuficiência das redes elétricas limita o escoamento da geração renovável e pode comprometer a rentabilidade de projetos, além de restringir a instalação de novas atividades intensivas em energia, como os centros de dados. Ao mesmo tempo, anúncios de fabricantes de veículos elétricos e de novas fábricas de baterias indicam oportunidades para ampliar a presença brasileira nas cadeias produtivas do setor.
China domina o refino de minerais críticos
O estudo também aponta diferenças importantes entre a distribuição da mineração e a capacidade de processamento dos minerais. Enquanto a extração está distribuída por diferentes países, a China lidera o refino de oito dos dez metais ou minerais analisados pela BNEF. No caso das terras raras, o país concentra 91% da capacidade global de refino, segundo os dados apresentados. A concentração reforça o peso chinês nas cadeias de suprimento e evidencia os desafios enfrentados por outros mercados para diversificar fornecedores e desenvolver capacidade industrial própria.
Ao sintetizar os resultados do levantamento, Rabioglio afirmou que a oferta projetada deverá atender à demanda de nove dos dez metais analisados, enquanto a concentração do refino na China permanece como um fator estrutural do mercado. Para o Brasil, o desafio é transformar sua base de recursos minerais em maior participação nas etapas industriais de valor agregado. “O Brasil tem feito escolhas nesse sentido de desenvolver uma indústria local e, pouco a pouco, se tornar, pelo menos regionalmente, um provedor de algumas soluções de transição energética”, concluiu.














