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Por Warley Pereira | Minera Brasil
O Brasil pretende utilizar suas reservas de minerais críticos para se reposicionar nas cadeias globais de suprimento sem aderir à disputa entre as grandes potências pelo controle desses recursos. A estratégia passa pela diversificação de parceiros comerciais, atração de investimentos e agregação de valor à produção mineral brasileira.
A posição foi defendida por Pedro Guerra, chefe de gabinete do vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, durante a Exposibram, em Belo Horizonte.
Para Guerra, a mineração ganhou importância ainda maior para o governo diante da reorganização das cadeias globais e do papel assumido pelos minerais críticos na disputa econômica e geopolítica internacional.
“A gente vive num período bastante complexo. O mundo passa por profundas tensões, guerras, mas também com uma certa beligerância do comércio, com o uso, inclusive, dos próprios minerais críticos como um ativo de barganha.”
Nesse cenário, segundo ele, a orientação do governo é evitar que o Brasil fique condicionado a um único bloco ou parceiro.
“O Brasil, nós acreditamos — e o presidente Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin têm deixado isso muito claro —, tem que se manter distante desses conflitos. Esse é o primeiro passo. O Brasil tem que buscar diversificar os seus parceiros, trazer credibilidade e objetividade.”
Minerais como ativo estratégico
A estratégia ganha relevância diante da posição estratégica brasileira. Guerra citou as reservas de terras raras, grafite, lítio, ferro, cobre e ouro, além do esforço para ampliar a produção nacional de fertilizantes.
Para o governo, essa diversidade mineral pode permitir ao Brasil ocupar uma posição diferenciada na reorganização das cadeias internacionais.
A estratégia, segundo Guerra, não é estabelecer previamente parceiros preferenciais, mas ampliar as possibilidades de negócios.
“O nosso objetivo é desenvolver parcerias sem preconceitos, sempre com foco na geração de negócios, na visão de longo prazo. É por aí que o governo está caminhando.”
MINERAÇÃO DENTRO DA POLÍTICA INDUSTRIAL
Mas o reposicionamento pretendido pelo governo não passa apenas pelo aumento das exportações minerais.
Um dos pontos centrais da manifestação de Guerra foi a necessidade de conectar mineração e política industrial para ampliar a parcela de valor gerada dentro do próprio país.
Segundo ele, a atividade mineral está presente, direta ou indiretamente, em todas as seis missões da Nova Indústria Brasil, que envolvem agroindústria, saúde, infraestrutura, transformação digital, bioeconomia, descarbonização e defesa.
“Do agro, passando pela saúde, infraestrutura, transformação digital, até a bioeconomia e a defesa, a gente tem mineração em todas elas. Então, o esforço agora é desenvolver parcerias, aprimorar processos e atrair mais pessoas para a gente conseguir desenvolver essas cadeias.”
A visão defendida pelo governo coloca a mineração como infraestrutura básica para diferentes setores da nova economia, especialmente aqueles associados à transição energética e tecnológica.
“PARCEIRO ESTRATÉGICO E CONFIÁVEL”
Guerra afirmou que o governo está dando “um enfoque muito especial” à atividade mineral pelo peso do setor na geração de empregos, entrada de divisas e desenvolvimento econômico.
Mas destacou que o momento é de buscar uma nova posição para o Brasil nas cadeias internacionais.
“Agora quer se reposicionar nas cadeias globais de suprimento como um parceiro estratégico, confiável, mas também como parceiro que contribui para o processo de descarbonização.”
Para isso, acrescentou, Estado e iniciativa privada precisarão atuar conjuntamente.
“O Brasil tem esses ativos e agora é nosso dever, como Estado, ajudar, em parceria com a iniciativa privada, a articular essas nossas capacidades.”
FERTILIZANTES ENTRAM NA ESTRATÉGIA
A redução da dependência externa de fertilizantes também está entre as prioridades.
Guerra reconheceu que a produção brasileira precisa superar desvantagens competitivas em relação ao produto importado e apontou três questões centrais: tributação e licenciamento ambiental.
“Para o fertilizante ter competitividade interna, ele tem que ter alguns fatores que ajudem a concorrer com os seus análogos importados. Precisamos ter uma isonomia tributária, precisamos ter gás mais barato, precisamos ter licenciamentos ambientais expeditos.”
F oto: Ibram / Divulgação.
Questionado sobre novos mecanismos de apoio ao setor, Guerra afirmou que existem limitações impostas pelo espaço fiscal, mas indicou que o governo estuda diferentes instrumentos.
Segundo ele, os caminhos podem ser tributários, creditícios ou regulatórios.
“Se vai ser na linha do subsídio, do apoio, nós veremos nos próximos dias, mas certamente o governo vai ter um olhar muito atento para isso”, afirmou.
A justificativa é estratégica. Para o governo, ampliar a produção doméstica de fertilizantes está diretamente relacionado à segurança alimentar, uma das prioridades da administração federal.
DO MINÉRIO À TECNOLOGIA
A passagem de Guerra pela Exposibram também reforçou uma percepção defendida pelo governo: não basta ter reservas , mas construir uma cadeia que envolva também equipamentos, tecnologia e empregos de maior qualificação.
Após visitar a Exposibram pela primeira vez, Guerra disse ter ficado impressionado com o tamanho e o grau de desenvolvimento tecnológico da indústria mineral brasileira.
“Fiquei impressionado com a quantidade de expositores, com a sofisticação dos empresários e como o Brasil tem potencial para não só atuar na exploração, mas inclusive para gerar tecnologia, produzir máquinas e gerar empregos de alta qualidade.”
E encerrou com uma projeção:
“Estou muito otimista e tenho certeza de que a nossa mineração vai se reposicionar de maneira ainda mais estratégica nos próximos anos.”
A mensagem levada pelo governo à Exposibram indica, portanto, uma ambição que vai além de ampliar a produção mineral, mas de agregação de valor.
Em um mundo no qual terras raras, lítio, grafite, cobre e outros minerais passaram de commodities industriais a instrumentos de poder econômico e geopolítico, o governo quer usar a diversidade geológica brasileira para ampliar parcerias sem ficar preso à disputa entre blocos.





