Por Ricardo Lima
O evento Goiás Mineral reuniu nesta quarta-feira (23) representantes do setor mineral, do poder público e da academia para discutir o papel da mineração no desenvolvimento econômico de Goiás, os desafios dos municípios que dependem da atividade e as perspectivas de expansão do setor no Estado. Realizado pelo Minde, Sindicato da Indústria da Mineração do Estado de Goiás e Distrito Federal, o encontro apresentou os impactos econômicos e sociais da mineração, experiências de desenvolvimento regional e propostas para a política mineral goiana.
O estudo “Goiás em Dados – A Influência da Mineração no Estado”, apresentado pelo diretor executivo do Instituto Mauro Borges de Economia e Estatística (IMB), Erik Figueiredo, aponta efeitos positivos da atividade mineradora sobre indicadores econômicos e sociais dos municípios goianos. A pesquisa avaliou mais de 80 indicadores e utilizou métodos de análise causal para comparar municípios mineradores com localidades semelhantes que não receberam a atividade.
Mineração amplia atividade econômica, mas impõe desafios
Os resultados apontam crescimento de aproximadamente 32% no Produto Interno Bruto (PIB) dos municípios mineradores e de cerca de 30% na arrecadação de impostos, além de aumento expressivo dos vínculos formais de emprego. A mineração também esteve associada a mudanças na dinâmica populacional e na proteção social. A população dos municípios analisados cresceu, em média, cerca de 6%, enquanto a necessidade de programas sociais caiu aproximadamente 9%.
Também foram identificados impactos positivos sobre a distribuição de renda, com redução de quase 4% no indicador de desigualdade analisado. Para Figueiredo, os resultados mostram que os efeitos da mineração ultrapassam a atividade diretamente realizada pelas empresas. “A dinâmica econômica, salário mais alto, salário mais baixo, altera a forma que nós vivemos”, afirmou.
Na saúde, a pesquisa não encontrou efeitos significativos sobre a maior parte dos indicadores analisados, incluindo mortalidade. Foi identificada redução na incidência de baixo peso ao nascer, mas não houve aumento proporcional de médicos, enfermeiros e dentistas diante do crescimento populacional. Na educação, também não foram observadas melhorias significativas no desempenho dos estudantes, embora tenha havido aumento das matrículas em creches.

Foto: FIEG.
Um dos principais pontos de atenção identificados pela pesquisa é a concentração da economia municipal em torno da mineração. Apesar do crescimento econômico, houve pequena redução no índice de diversificação econômica e não foi identificado efeito estatisticamente significativo sobre a indústria não extrativa. Para Figueiredo, os municípios precisam se preparar para o período posterior à atividade. “Você precisa, quando ela sair, você precisa ter algo pra ocupar o espaço dela”, afirmou. O estudo também identificou aumento da diferença salarial entre homens e mulheres, associado ao crescimento da remuneração masculina.
Os indicadores de violência doméstica apresentaram, por outro lado, resultados positivos. As notificações de violência contra mulheres caíram 54% nos municípios analisados, incluindo reduções em violência por parceiro íntimo, psicológica, física e recorrente. A pesquisa também não identificou piora significativa na qualidade do ar. Segundo Figueiredo, os principais pontos de atenção estão relacionados à capacidade dos municípios de responder ao crescimento econômico e populacional, e não a uma deterioração generalizada dos indicadores sociais.
Na síntese do estudo, Figueiredo afirma que a mineração produz ganhos econômicos relevantes, mas que a transformação desses ganhos em desenvolvimento depende da atuação pública. Entre os desafios estão a diversificação das economias locais, infraestrutura e saneamento, educação e redução das desigualdades salariais. “Uma mensagem extremamente positiva para o setor, mas com vários pontos de atenção”, resumiu.
Municípios precisam se preparar para o pós-mineração
Ao analisar a trajetória de municípios como Alto Horizonte, Barro Alto, Crixás, Mara Rosa, Minaçu e Catalão, Luiz Antônio Vessani, presidente do conselho do Minde, Sindicato da Indústria da Mineração do Estado de Goiás e Distrito Federal, destacou que os efeitos da mineração sobre o desenvolvimento regional dependem da criação de alternativas econômicas. Catalão, segundo ele, apresenta uma estrutura mais diversificada, com indústria, logística, mercado e rede de ensino desenvolvidos. “Não basta a mineração”, afirmou, ao apontar a diversificação como fator de sustentação diante de uma eventual paralisação das minas.

Vessani ressaltou que a preparação para o pós-mineração deve começar de forma antecipada pelos gestores municipais. Foto: FIEG.
Para Vessani, a preparação deve ocorrer enquanto as operações ainda estão em funcionamento. Alto Horizonte mantém forte dependência da mineração, enquanto Crixás chegou próximo de enfrentar uma paralisação. Em Mara Rosa, ele destacou a possibilidade de combinar a retomada da produção de ouro com o desenvolvimento agrícola e a expansão logística. Em Minaçu, a redução da produção de amianto é acompanhada pela possibilidade de diversificação com o projeto de terras raras da Serra Verde.
A partir dos casos apresentados, Vessani defendeu maior articulação entre empresas, municípios e Estado para planejar alternativas econômicas, infraestrutura e políticas públicas antes de eventual redução ou encerramento das atividades. Para ele, a discussão deve considerar não apenas a geração imediata de renda, empregos e arrecadação, mas a capacidade de transformar esses recursos em uma estrutura econômica capaz de permanecer após a atividade mineral. “Esse tipo de planejamento tem que ser nacional”, afirmou.
Governo quer expansão da atividade mineral
O governador de Goiás, Daniel Vilela, anunciou a intenção de ampliar a atuação do governo estadual no setor mineral, com mudanças na governança dos órgãos que mantêm relação com a atividade e maior aproximação com empresas e representantes do setor. Segundo ele, o Estado deve aproveitar o potencial mineral de Goiás e criar condições para ampliar a produção, especialmente diante da demanda internacional por minerais estratégicos. “Nós precisamos de ter um governo ainda mais aberto ao diálogo”, afirmou.

Daniel Vilela, governador de Goiás. Foto: Ricardo Lima.
Vilela também destacou o potencial de Goiás na exploração de terras raras e afirmou que o governo pretende contribuir para viabilizar a implantação do projeto Carina, da Aclara Resources, em Nova Roma, no nordeste goiano. O empreendimento seria a segunda mina comercial de terras raras em Goiás, depois da operação da Serra Verde, em Minaçu. “O governo vai fazer todos os esforços necessários para garantir também um desenvolvimento equilibrado da cidade e da região”, disse.
Ao defender a expansão da produção mineral, o governador afirmou que o Estado precisa combinar inovação e aumento da atividade econômica com medidas de proteção ambiental. Goiás ocupa, segundo ele, a terceira posição entre os estados brasileiros em produção mineral, mas enfrenta a aproximação da Bahia. “Nós não podemos perder o bonde da história”, afirmou, ao defender que o Estado aproveite o potencial de minerais estratégicos para ampliar sua participação no mercado nacional e internacional.














