Por Ricardo Lima
O interesse global por minerais críticos e estratégicos tem ampliado as oportunidades de financiamento para a mineração brasileira, mas ainda não eliminou os obstáculos à estruturação de novos projetos. A avaliação foi compartilhada por representantes de grandes mineradoras e empresas com projetos em desenvolvimento durante o painel “Desafios para a estruturação de projetos: a perspectiva das mineradoras”, realizado no Invest Mining Summit 2026.
Embora o setor tenha conquistado maior relevância nas estratégias de investimento, a disponibilidade de recursos continua condicionada à qualidade dos empreendimentos, à previsibilidade regulatória, à infraestrutura e à capacidade de retorno financeiro. Os participantes também defenderam a regulamentação ágil dos instrumentos previstos na nova política para minerais críticos e estratégicos, com destaque para o fundo garantidor, apontado como uma alternativa para facilitar o financiamento de projetos em estágio inicial.
Para José Luís Marques, diretor de assuntos corporativos da Vale Base Metals, a mineração deixou de ser vista exclusivamente como uma indústria de commodities e passou a ocupar uma posição estratégica na economia global. Essa mudança ampliou o interesse de instituições financiadoras, mas não reduziu o rigor na seleção dos investimentos.
“Hoje, basicamente, nós temos maior disponibilidade de capital para mineração, mas o nível de escrutínio ainda é grande”, afirmou Marques. Segundo ele, fatores como potencial geológico, risco jurisdicional, agilidade no licenciamento ambiental e capacidade operacional continuam determinantes para a decisão dos investidores.
O executivo ressaltou que a estabilidade regulatória é fundamental para atrair capital de longo prazo. Na avaliação dele, o Brasil ainda precisa avançar na regulamentação de políticas públicas e reduzir incertezas, especialmente no ambiente fiscal e tributário, para competir em condições mais favoráveis com países como Canadá, Austrália e Estados Unidos.

José Marques, da Vale Base Metals, avalia que fatores como potencial geológico, risco jurisdicional, agilidade no licenciamento ambiental e capacidade operacional continuam determinantes para a decisão dos investidores.
Acesso a capital varia conforme o estágio do projeto
A percepção de melhora no financiamento é mais evidente na fase de exploração mineral, mas os desafios aumentam à medida que os empreendimentos avançam para etapas que exigem investimentos mais elevados em infraestrutura e implantação.
Marcelo Carvalho, diretor executivo da Meteoric Resources, afirmou que a captação de recursos no mercado internacional tem sido favorável para empresas em fase de exploração, especialmente aquelas voltadas a minerais críticos. Segundo ele, investidores estrangeiros demonstram apetite por esses projetos, enquanto fundos brasileiros também começam a participar nas fases iniciais de desenvolvimento dos empreendimentos.
O cenário, porém, muda quando chega o momento de financiar a implantação, etapa que exige aportes mais elevados e estruturas de crédito específicas. Carvalho destacou a importância da participação de instituições financeiras nacionais, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para viabilizar projetos de empresas de menor porte.
“Para empresas como a nossa, agora talvez a gente não precise do fundo, mas para 90% das empresas que estão desenvolvendo projetos de minerais críticos no Brasil, o CAPEX desses projetos é mais alto do que o market cap das empresas”, afirmou.
Na avaliação do executivo, ampliar o acesso ao financiamento é essencial não apenas para viabilizar a extração mineral, mas também para favorecer o desenvolvimento das etapas seguintes da cadeia produtiva no país. Sem crédito adequado, empresas podem depender de contratos de compra futura da produção (off-takes) com parceiros externos, o que, segundo Carvalho, pode dificultar a verticalização dos projetos no Brasil.
Fundo garantidor é apontado como oportunidade
A regulamentação do fundo garantidor previsto na política para minerais críticos e estratégicos foi outro ponto central do debate. Para Diogo Rocha, responsável por estratégia e desenvolvimento de portfólio na BHP, o mecanismo pode ajudar a destravar projetos e fortalecer o ambiente de negócios do setor, mesmo quando os efeitos diretos sobre as grandes mineradoras forem limitados.
“É uma iniciativa muito positiva e é muito bom ver a mineração virar política de Estado”, afirmou Rocha.
O executivo da BHP destacou que projetos de mineração exigem grandes aportes iniciais e têm horizontes de operação que podem alcançar décadas. Por isso, mudanças nas regras ao longo do desenvolvimento dos empreendimentos representam um fator de risco relevante para quem investe.
Rocha também chamou a atenção para a concorrência internacional por capital dentro das próprias empresas. Na BHP, por exemplo, projetos brasileiros disputam recursos com oportunidades em outras regiões do mundo, como Chile e Austrália. Nesse contexto, além da atratividade econômica, a disponibilidade de infraestrutura e a segurança para executar os investimentos influenciam a prioridade dada a cada empreendimento.
Segundo ele, a falta de ferrovias e de acesso à energia pode impedir o avanço de projetos mesmo em regiões com potencial geológico expressivo. O Brasil reúne reservas diversificadas e uma matriz elétrica com participação relevante de fontes limpas, mas precisa superar essas limitações para converter suas vantagens naturais em produção.

Marcelo Carvalho destacou que instituições financeiras nacionais, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), são importantes para viabilizar projetos de empresas de menor porte.
Custo do capital e gargalos estruturais persistem
Os obstáculos ao financiamento também foram destacados por André Simão, diretor financeiro da Brazilian Nickel. Embora tenha reconhecido a evolução do mercado brasileiro e o maior interesse de investidores locais por empresas de menor porte, ele afirmou que o custo do capital e as dificuldades para estruturar garantias continuam limitando o desenvolvimento de novos projetos.
“Apesar de hoje termos mais facilidade de acessar recursos locais, o custo de capital ainda é muito alto”, afirmou Simão. Segundo ele, juros elevados, insegurança jurídica e dificuldades para oferecer garantias tornam o financiamento especialmente desafiador para empreendimentos que ainda não geram receita operacional.
O executivo também ressaltou a importância de regulamentar o fundo garantidor previsto na política para minerais críticos e estratégicos, para que as empresas possam compreender como o mecanismo funcionará e estruturar alternativas de financiamento com a participação de investidores nacionais. “Hoje, do jeito que está, é muito difícil”, disse, ao se referir às condições para viabilizar essas operações no mercado brasileiro.
Além do financiamento, Simão defendeu uma visão integrada da cadeia mineral. Ao mencionar as dificuldades da indústria de refino de níquel no Brasil, destacou que a exportação pode ser economicamente mais vantajosa do que o processamento doméstico, comprometendo a competitividade de etapas industriais no país. Para ele, superar esse cenário exige não apenas viabilizar novos projetos de extração, mas também criar condições para ampliar o processamento e a agregação de valor à produção mineral brasileira.

Simão, da Brazilian Nickel, comentou a importância de regulamentar o fundo garantidor previsto na política para minerais críticos e estratégicos
Potencial geológico depende de previsibilidade e execução
Apesar das diferenças entre empresas e estágios de desenvolvimento, o painel convergiu para a avaliação de que o Brasil reúne condições geológicas, energéticas e técnicas para ampliar sua participação na mineração global. O desafio está em articular essas vantagens com um ambiente regulatório estável, infraestrutura adequada e instrumentos financeiros compatíveis com os riscos e prazos dos projetos.
Para Edson Ribeiro, presidente da Comissão Brasileira de Recursos e Reservas (CBRR) e moderador do debate, a questão central é avaliar se o reconhecimento internacional da importância da mineração já se traduziu em condições mais favoráveis para estruturar empreendimentos no país.
As discussões indicaram que houve avanços, especialmente na percepção da mineração como setor estratégico e no interesse por minerais críticos, mas que a ampliação do acesso a capital, por si só, não garante a execução dos projetos.
A efetividade da nova política mineral dependerá, na avaliação apresentada pelos executivos, da rapidez e da consistência de sua regulamentação, da redução das incertezas para investidores e da capacidade de superar gargalos de infraestrutura e financiamento. Mais do que atrair recursos, o desafio será convertê-los em projetos competitivos, ampliar o processamento mineral no Brasil e consolidar uma política de longo prazo capaz de atravessar mudanças de governo.














