Por Paulo Vilas Boas
Com o mundo em busca de alternativas à dependência da China, o Brasil virou a “bola da vez” na agenda dos minerais críticos. A expressão é de José Gordon, do BNDES, que abriu o painel do Invest Mining 2026 dedicado ao financiamento público e privado do setor mineral. Ao lado dele, Juan Paródi, do BID Invest, completou o raciocínio: a oportunidade vai além do subsolo e alcança a indústria, a tecnologia e o desenvolvimento do país. A mediação foi de Robson Rodrigues, da CNN.
Gordon pediu cautela com a pressa na fabricação de células de baterias nacionais. Antes delas, defendeu, vêm a lavra e os primeiros passos do beneficiamento. O ponto de partida é conhecer a qualidade do que existe no solo. Boa parte dos projetos pertence a junior companies, empresas menores que enfrentam dificuldades de estruturação financeira e de garantias.
O executivo do BID Invest vê o mesmo obstáculo por outro ângulo e o desdobrou em cinco desafios: risco geológico e tecnológico; previsibilidade do licenciamento; infraestrutura (energia, porto, rodovia); comercialização e a capacidade dos patrocinadores de aportar mais recursos diante de imprevistos.
“Nas terras raras, até a formação de preço ainda é incerta. A solução exige governo, instituições privadas e organismos multilaterais agindo de forma coordenada”, disse.

José Gordon disse que o país está aberto a Austrália, Japão, Estados Unidos, União Europeia desde que parte da transformação aconteça em território brasileiro
Linhas de crédito
Indagado sobre o momento em que projetos sem fluxo de caixa podem receber apoio, o diretor do BNDES detalhou os instrumentos. A linha dedicada à inovação libera até R$ 300 milhões por ano, a 2% ao ano. O Brasil Soberano, com prioridade para minerais críticos, oferece R$ 500 milhões a 3% anuais. O Fundo Clima soma outros R$ 500 milhões, a 6,5%. Somados, os incentivos chegam a R$ 1,3 bilhão por empresa, fora uma linha em dólar. E há ainda a BNDESPar, que investe diretamente no capital das companhias.
O maior gargalo, de acordo com ele, são as garantias. Para isso, o projeto de lei dos minerais críticos criou um fundo garantidor, ainda em estruturação com a Casa Civil.
É aqui que as falas se encontram. A lacuna que Gordon chama de garantias é a mesma que Paródi descreve ao falar de contratos de comercialização e de risco de construção. Para o executivo do BID Invest, o papel de um banco de desenvolvimento é justamente absorver parte desse risco em projetos de 10 a 15 anos, de modo que investidores privados se sintam seguros para entrar.
Os dois também convergiram na exigência socioambiental. O BNDES criou uma política específica para o setor, e Paródi detalhou os critérios do BID Invest: viabilidade financeira, sustentabilidade e impacto no desenvolvimento, com padrões internacionais para água, biodiversidade e povos indígenas. Para ele, não basta dizer que a mineração é importante: a comunidade precisa sentir os benefícios na prática.
Já a lição das energias renováveis ficou a cargo de Gordon. Segundo ele, a política que fortaleceu a cadeia eólica foi interrompida quando governos anteriores permitiram financiar projetos solares sem conteúdo nacional. Agora, o leilão de baterias já exige participação local crescente, o que cria demanda para puxar a agregação de valor.
Parcerias abertas, regra única
Em sua fala final, José Gordon disse que o país está aberto a Austrália, Japão, Estados Unidos, União Europeia e quem mais quiser investir, desde que parte da transformação aconteça em território brasileiro, e que o BNDES não pretende financiar tudo sozinho. Paródi reforçou seu pensamento na abertura do painel, pedindo que minerais críticos deixem de ser vistos como meras commodities. “Em um momento geopolítico delicado, o redesenho global abre espaço para gerar riqueza, emprego e renda além do setor mineral”.














