Por Paulo Vilas Boas
Em mais uma edição do Invest Mining Summit 2026, realizada no coração financeiro do país, o painel “Pesquisa Mineral: Etapas para a segurança dos financiamentos” trouxe João Luiz de Carvalho, da Geosol, que subiu ao palco para apresentar a geologia brasileira a quem decide onde aplicar capital.
Ele resumiu a missão com bom humor: estava ali, mais uma vez, “passando o chapéu” para atrair quem ainda não enxergou a mineração como destino natural de recursos.
A comparação que escolheu como ponto de partida foi o agronegócio. O Brasil virou referência mundial em produção agrícola e em tecnologia, e a geologia nacional tem potencial para trilhar caminho semelhante.
Para isso, apresentou sete pilares que sustentam o retorno de um projeto mineral: teor, previsibilidade, recuperação, investimento inicial, retorno rápido, licenciamento e o resultado financeiro final.
O executivo aproveitou o interesse global por minerais críticos para destacar uma diferença geológica com peso econômico. Hoje, a China domina a tecnologia, o controle e a comercialização das terras raras. Só que o processo chinês começa com a rocha dura, que precisa ser britada e moída até virar uma espécie de “papa”. No Brasil, segundo Carvalho, a natureza adiantou o serviço: o material já ocorre na argila. É uma etapa a menos na cadeia, e uma vantagem competitiva que o país precisa saber aproveitar.
Se o minério é o ativo, o conhecimento sobre ele é o seguro. Carvalho listou o que reduz o risco de um empreendimento: mapeamento geológico bem-feito, levantamentos geofísicos consistentes, sondagem de qualidade e análises confiáveis. “Tudo isso precisa desaguar em um banco de dados e em um modelo que orientem a lavra e o desenvolvimento da mina. Parece óbvio, mas é justamente o passo que não pode ser pulado”, complementou.
Há uma ressalva importante nesse raciocínio. O mapa geológico do território nacional ainda não oferece o grau de detalhe que um empreendimento exige. Carvalho preferiu enxergar a lacuna como oportunidade, já que o terreno a ser conhecido é imenso e quem chegar com boa informação sai na frente.
Janela aberta, disciplina em alta
O cenário externo ajuda. Segundo o executivo, há muitos anos não se via uma conjuntura tão favorável para investir em mineração, impulsionada pela transição energética e pela corrida por terras raras. A bonança de preços, porém, não dispensa rigor. Preços elevados, alertou, não substituem a disciplina de capital.
Para que o país aproveite o momento, ele apontou o caminho: previsibilidade regulatória, licenciamento eficiente, financiamento competitivo e segurança jurídica. O Brasil tem riqueza mineral e riqueza agrícola, mas ainda carece de liquidez voltada especificamente ao setor mineral.

“O dinheiro existe, os bens minerais estão valorizados, e a disputa gira em torno de projetos de qualidade, o que depende, por fim, do apetite de quem investe”, avaliou o executivo da Geosol.
Bússola para o investidor
Carvalho fez uma distinção que serve de bússola para o investidor. Todo projeto traz riscos, e os dois grandes gargalos da mineração, o licenciamento e a insegurança jurídica, podem ser atenuados com boas práticas e bom diálogo institucional. “O que nenhuma engenharia financeira resolve é a ausência de minério. Sem depósito, não há projeto”.
Os números mostram o tamanho do desafio de reputação. Em atratividade para capital, o Brasil já ocupou a 53ª posição e hoje aparece na 29ª, avanço expressivo, ainda distante do topo. Na leitura do geólogo, o mercado sabe lidar com exigências ambientais, que entram no cálculo como custo. Aquilo que ele não consegue precificar é a incerteza.
Embora as terras raras dominem manchetes e palestras, a demanda real de exploração mineral conta outra história. O ouro lidera com folga, com 53% do interesse, seguido pelos metais básicos, com 14%. As terras raras vêm logo atrás, com 11%. A fotografia lembra que o entusiasmo com os minerais do futuro convive com o apetite constante pelos metais tradicionais.
Em sua mensagem final, ele disse que a passo-passo para atrair o investidor segue o mesmo: conhecer bem o solo, organizar a informação, respeitar o capital e oferecer regras claras. É dessa soma que, segundo ele, nasce a ponte entre a geologia e o fluxo de caixa.













