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Por Ricardo Lima
A expansão dos projetos de minerais críticos no Brasil está provocando uma mudança estrutural nos critérios de compra das mineradoras e elevando o nível de exigência sobre fornecedores da indústria química. O foco deixa de ser apenas o preço por tonelada e passa a incorporar risco operacional, conformidade regulatória e custo total de operação.
Segundo Renan Coelho, diretor comercial da Katrium Indústrias Químicas (Grupo Quimpac), empresas do setor têm priorizado insumos com constância de especificação, estabilidade química e logística previsível, especialmente em rotas hidrometalúrgicas associadas a lítio, terras raras e outros minerais estratégicos.
“O preço unitário segue relevante devido à forte entrada de insumos asiáticos e a necessidade constante em melhorar a eficiência global”, afirma. Contudo, para ele, o preço passa a ter menor influência quando a decisão incorpora os ganhos associados à proximidade logística, suporte técnico e previsibilidade de fornecimento.
A conta real inclui riscos logísticos, rupturas na cadeia global de suprimentos, retrabalho, perdas de processo e risco de não conformidade operacional
Renan Coelho – Diretor Comercial da Katrium
A mudança ocorre em um momento de maior pressão internacional por transparência e resiliência nas cadeias de suprimentos. Relatório recente do Serviço Geológico do Brasil aponta que minerais críticos ligados à transição energética e à indústria de tecnologia estão no centro de disputas geoeconômicas e exigem maior controle sobre origem, rastreabilidade e padrões ambientais.
Na prática, esse movimento tem levado mineradoras a reforçar contratos com SLAs (acordos de nível de serviço), ampliar estoques de segurança e exigir programas de rastreabilidade digital de lotes, abrangendo todo o percurso da matéria-prima até o destino final.
Em processos que utilizam reagentes alcalinos e outras especialidades químicas, variações de especificação podem comprometer o rendimento metalúrgico, aumentar a geração de subprodutos e afetar a segurança operacional, resultando em custos adicionais superiores ao valor originalmente contratado. “São critérios que surgem tanto da necessidade de reduzir risco operacional quanto de atender a exigências crescentes de compliance e ESG (ambiental, social e governança)”, destaca Coelho.
A tendência também favorece fornecedores com presença local e estrutura logística consolidada, capazes de garantir entregas “just in time” e suporte técnico contínuo. Para especialistas, trata-se de um movimento que reposiciona a indústria química como parceira estratégica na cadeia de minerais críticos.
“Embora insumos como reagentes, aditivos ou intermediários químicos não sejam tão visíveis quanto minério de ferro, ouro ou nióbio, eles desempenham um papel central na eficiência operacional, segurança de processos e sustentabilidade ambiental das grandes operações mineiras”, avalia Coelho.
Com a mineração respondendo por parcela relevante do saldo comercial brasileiro e atraindo novos aportes em projetos voltados a minerais estratégicos, a sofisticação das práticas de compra sinaliza um novo padrão competitivo, no qual eficiência, segurança e governança passam a ser tão determinantes quanto o preço.
Peso da mineração na economia eleva exigências sobre cadeia de insumos
Dados do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) mostram que o setor mineral brasileiro encerrou 2025 com faturamento de R$ 298,8 bilhões, crescimento superior a 10% em relação a 2024. O minério de ferro respondeu por mais da metade desse montante, mantendo-se como principal produto da pauta mineral.
Segundo informações divulgadas pela Times Brasil, a atividade também foi responsável por cerca de 55% do saldo positivo da balança comercial no período, reforçando o peso estrutural da mineração na economia nacional.
O desempenho não se limita ao consolidado anual. Levantamento do próprio IBRAM, repercutido pelo Broadcast, indica que o setor faturou R$ 76,2 bilhões no terceiro trimestre do ano passado, avanço de 34% sobre igual período de 2024. Para analistas, os números evidenciam resiliência operacional e capacidade de resposta mesmo em um ambiente de volatilidade nos preços internacionais.
Esse contexto de expansão e relevância estratégica ajuda a explicar a crescente sofisticação das exigências ao longo da cadeia produtiva, inclusive para fornecedores de insumos químicos. Em operações cada vez mais pressionadas por eficiência, compliance e metas ESG, qualidade consistente, rastreabilidade de lotes e confiabilidade logística deixaram de ser diferenciais e passaram a representar requisitos básicos para sustentar a competitividade e assegurar a continuidade operacional.













