COBERTURA ESPECIAL – EXPOSIBRAM 2026
Apoio: BHP e IBRAM
Por Rodrigo Pessoa Avelino – CEO da Ferro Congonhas Mineração (FERCONM)
Há uma pergunta que vem aparecendo com frequência crescente nas discussões sobre o futuro da mineração brasileira: como transformar o enorme potencial mineral do país em projetos concretos, estruturados e capazes de atrair investimento?
Tenho percebido essa preocupação de forma cada vez mais clara nos eventos e interlocuções dos quais tenho participado, especialmente nas conversas com representantes de governos estrangeiros, investidores e agentes do mercado de capitais interessados na mineração brasileira. A pergunta aparece sob diferentes formas, mas aponta para a mesma questão: descobrir um recurso mineral é apenas o começo. Entre a descoberta e a decisão de investimento existe um longo processo de desenvolvimento do projeto.
O Brasil tem uma posição singular nesse debate. Possui uma das maiores e mais diversificadas dotações minerais do mundo, uma indústria de mineração consolidada e competência técnica reconhecida em diferentes áreas. Ao mesmo tempo, o país continua ampliando o conhecimento geológico de seu território, desenvolvendo infraestrutura e buscando melhorar o ambiente regulatório e de investimentos. O Plano Nacional de Mineração 2050 reconhece essa agenda e estabelece diretrizes para que o potencial mineral brasileiro contribua cada vez mais para o desenvolvimento econômico e sustentável do país.
Mas o potencial geológico, por si só, não é ainda um projeto de mineração.
Uma ocorrência mineral precisa ser investigada, caracterizada e compreendida. Recursos precisam ser estimados. Reservas, quando aplicável, precisam ser demonstradas segundo critérios técnicos reconhecidos. É necessário compreender as condições de lavra, processamento, infraestrutura, mercado, licenciamento, aspectos ambientais, riscos, investimentos necessários e retorno esperado. Ao longo desse processo, diferentes incertezas precisam ser reduzidas até que o projeto possa ser analisado de forma consistente por seus potenciais financiadores e investidores.
É nesse percurso que a discussão sobre estruturação de projetos ganha importância.
Não se trata de afirmar que o Brasil não possui profissionais, empresas ou instituições capazes de realizar esse trabalho. Possui. O país reúne competências relevantes em geologia, engenharia, meio ambiente, economia mineral, direito, finanças e diversas outras áreas relacionadas à mineração.
A questão é outra: como essas competências são integradas para transformar uma oportunidade mineral em um projeto compreensível, quantificado e suficientemente estruturado para uma decisão de investimento?
Essa distinção é importante.
Um projeto mineral não é apenas um conjunto de estudos independentes. Geologia precisa conversar com engenharia. Engenharia precisa conversar com licenciamento e infraestrutura. Os investimentos necessários precisam ser confrontados com o potencial de produção e com as condições de mercado. Os riscos precisam ser identificados e dimensionados. E todas essas informações precisam convergir para uma visão integrada do empreendimento.
No fim, o investidor não está comprando apenas minério. Está avaliando uma combinação de recursos, tecnologia, infraestrutura, mercado, riscos, capital necessário, capacidade de execução e perspectivas de retorno.
Por isso, talvez seja útil ampliar a forma como pensamos a estruturação de projetos minerais. Ela não deveria ser vista apenas como uma etapa técnica anterior ao financiamento, mas como um processo contínuo de redução de incertezas e construção de confiança em torno de um empreendimento.
Essa perspectiva também ajuda a qualificar o debate sobre políticas públicas.
O PNM 2050 estabelece metas relacionadas ao conhecimento geológico, à atividade mineral, à inovação, à sustentabilidade e à competitividade do setor. São agendas fundamentais. Mas, ao lado delas, existe uma pergunta que merece cada vez mais atenção: o que acontece com o projeto depois que o potencial mineral é identificado?
Quantos projetos avançam da pesquisa para a definição de recursos? Quantos evoluem para estudos econômicos mais robustos? Quanto tempo leva essa maturação? Em quais etapas os projetos encontram maiores dificuldades? Quais fatores determinam que uma oportunidade avance e outra permaneça apenas como potencial?
Não se trata de substituir os indicadores existentes, mas de complementar a visão sobre o desenvolvimento mineral.
Afinal, o resultado de uma política mineral não está apenas no quanto conhecemos do subsolo, nem somente na quantidade de processos analisados ou de investimentos anunciados. Está também na capacidade de transformar conhecimento e oportunidade em empreendimentos capazes de gerar produção, empregos, arrecadação, inovação e desenvolvimento.
Essa discussão ganha ainda mais relevância diante do crescente interesse internacional pelos minerais críticos e estratégicos. Governos estrangeiros buscam segurança e diversificação de suprimentos. Investidores procuram novos ativos. Empresas avaliam oportunidades de expansão. O Brasil, naturalmente, está no radar dessas decisões.
Nesse ambiente, possuir recursos minerais e projetos capazes de transformar esses recursos em empreendimentos são algumas das vantagens.
Talvez o próximo passo do debate brasileiro sobre mineração não seja escolher entre geologia, regulação, licenciamento, infraestrutura ou capital. O desafio está justamente em compreender como esses elementos se conectam ao longo da trajetória de um projeto.
Porque entre uma ocorrência mineral e uma mina existe muito mais do que minério.
Existe um processo de desenvolvimento, de redução de incertezas e de construção de confiança.
E é nesse espaço entre o potencial mineral e a decisão de investimento que grande parte do futuro da mineração brasileira será construída.




