Redação
Atracado no Porto de Vila do Conde, em Barcarena, o navio Zante Dawn, de bandeira maltesa, deve partir nesta quarta-feira (28/1), com destino a Nanjing, na China, carregado com 32 mil toneladas de minério de manganês. A operação levanta suspeitas e questionamentos sobre a origem do minério, a cadeia logística envolvida e os mecanismos de fiscalização ao longo de todo o trajeto.
O Minera Brasil teve acesso a denúncia encaminhada a autoridades federais e estaduais que indica que o minério teria sido extraído ilegalmente na Serra do Sereno, região que abrange os municípios de Marabá, Curionópolis e Eldorado dos Carajás. No local, teriam sido mapeados diversos pontos de extração, britagem e estocagem clandestinas, todos fora do circuito formal de licenciamento ambiental e minerário.
Pontos de extração clandestina na Serra do Sereno
As áreas estariam distribuídas entre garimpos clandestinos conhecidos na região e pátios improvisados de beneficiamento, incluindo o Garimpo do Macarrão (anteriormente conhecido como Garimpo do Marlon), voltado à extração de manganês; o Garimpo do Joãozão, com extração de ouro e manganês; o Garimpo do Paraíba, focado em manganês; e o Garimpo do Xexéu, associado à extração de ouro.

Fontes ouvidas pela reportagem também apontam aproximações políticas envolvendo Sidney Carlos Ostermann, conhecido como “Macarrão”, e a deputada federal Renilce Nicodemos (MDB-PA).
Operador do esquema
Segundo o documento, o minério extraído nesses pontos segue por rotas rodoviárias, sendo transportado por caminhões ao longo de centenas de quilômetros até o município de Barcarena, onde estaria sendo armazenado no pátio da empresa Norte Empreendimentos, que atua como terminal logístico e operador portuário, antes do embarque marítimo com destino à China.
Informações apuradas junto a fontes que acompanham as investigações desencadeadas pela Operação Nêmesis, da Polícia Federal— que resultou na apreensão de um helicóptero, bens de luxo e no bloqueio de R$ 24 milhões — também colocam a MR Mining no radar das autoridades. A operação investiga a participação da empresa no esquema de exportação irregular de minério para a China.
Entre os alvos da PF está o empresário Alexandre Masoller Borges, apontado como elo na estrutura de financiamento, compra e comercialização do manganês. Reportagem publicada pelo Minera Brasil em junho de 2025 já havia citado Masoller e sua empresa como integrantes de um esquema organizado voltado a “esquentar” minério de origem irregular.
Agentes da Polícia Federal estiveram no escritório da MR Mining, em Goiânia, e constataram que o endereço é de fachada, utilizado para tentar driblar a fiscalização. A PF também teria ido à residência do empresário, mas ele não foi localizado.
Ainda segundo as investigações, a MR Mining seria utilizada para fornecer suporte logístico e documental ao escoamento e à exportação do manganês extraído ilegalmente. Masoller conta com uma frota de cerca de 15 caminhões, utilizada para transportar o material da Serra do Sereno até o terminal portuário em Barcarena. Os veículos estariam registrados em nome da empresa Transmasoller Ltda., sediada em Parauapebas (PA), o que reforça os questionamentos sobre a estrutura logística que sustenta a circulação do minério até o porto.

Após operação da PF garimpeiros retiraram maquinas dos pontos de extração e levaram para Vila alto Bonito com receio que fossem encontradas lavrando ilegalmente.
Minério sem rastreabilidade
O episódio expõe um paradoxo no setor mineral do Pará. Enquanto empreendimentos regulares aguardam por anos a tramitação de licenças ambientais junto à Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas), empresas de fachada conseguem driblar os sistemas de controle e exportar milhares de toneladas de minério de origem clandestina. A morosidade do licenciamento acaba contribuindo para o avanço da ilegalidade, permitindo que áreas vinculadas a projetos formais sejam invadidas por garimpeiros, que atuam sem controle ambiental, sem rastreabilidade e sem recolhimento de tributos.
A existência de um navio carregando minério de origem suspeita levanta dúvidas sobre os mecanismos de controle e pode revelar indícios de um esquema que envolveria aliciamento de agentes públicos, tráfico de influência e sonegação fiscal.
Como esse minério consegue cruzar estradas, passar por barreiras fiscais e postos de fiscalização? Quais documentos acompanham a carga até sua entrada em uma área portuária sob administração federal?
As perguntas recaem sobre todos os elos da cadeia — da extração ao transporte, do armazenamento ao embarque — e ganham ainda mais peso em um momento em que o Brasil busca se consolidar como fornecedor confiável de minerais estratégicos no mercado internacional.











