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Home Artigos & Opinião

A Nova Revolução

24 de abril de 2026
em Artigos & Opinião
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A Nova Revolução

Luis Del Cistia.

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Por Luis Del Cistia – Diretor de Infraestrutura, Energia e Recursos Naturais da Turner & Townsend LATAM

Uma mudança que não é cíclica, é estrutural 

Durante quase oito décadas, o mundo operou sob regras relativamente claras: produzir onde era mais barato, vender onde o retorno era maior e sustentar cadeias globais de suprimentos altamente integradas. Esse modelo viabilizou crescimento econômico, expansão do comércio e um longo período de estabilidade relativa.

Esse arranjo, no entanto, está se desfazendo. Conflitos geopolíticos, volatilidade de mercados e rupturas recorrentes nas cadeias globais de valor indicam quenão estamos diante de um ajuste conjuntural. O que se desenha é uma redistribuição profunda de poder, capital e riqueza, comparável apenas ao período do pós-Segunda Guerra Mundial.

Da euforia tecnológica ao fim da inocência

No fim dos anos 1990, a internet impulsionou uma expansão acelerada de valuations. A queda da Nasdaq em 2000 e, logo depois, os atentados de 11 de setembro expuserama fragilidade daquele otimismo e revelaram vulnerabilidades centrais dos Estados Unidos. A confiança no excepcionalismo americano e na estabilidade do sistema global começou a ser questionada.

China, commodities e dependência estratégica

A entrada da China na Organização Mundial do Comércio inaugurou o maior boom de demanda por matérias-primas da história moderna. Os preços globais dispararame países emergentes — especialmente o Brasil — assumiram protagonismo no superciclo das commodities.

Esse ciclo, porém, encontrou seus limites. A desaceleração chinesa e o excesso de investimentos globais em capacidade produtiva levaram ao seu esgotamento. Paralelamente,o setor de mineração foi abandonado por investidores, que priorizaram tecnologia e ativos financeiros. O resultado foi uma consequência estratégica: o Ocidente tornou-se dependente de fornecedores externos — sobretudo da China — para minerais críticos.

O colapso da confiança na globalização

A globalização sempre dependeu de três pilares: paz entre grandes potências, previsibilidade institucional e confiança financeira. Esse alicerce foi profundamenteabalado em 2022, quando Estados Unidos e Europa congelaram cerca de US$ 300 bilhões em reservas da Rússia.

A mensagem foi clara: nenhum país está totalmente seguro dentro do sistema financeiro ocidental. A confiança — base do dólar como moeda global — foi diretamenteafetada.

Tecnologia, ativos reais e o novo deslocamento de capital

Ao longo da história, grandes revoluções tecnológicas provocam um deslocamento de capital dos ativos financeiros para os ativos reais. Foi assim na Segunda RevoluçãoIndustrial, na crise do petróleo e no boom das commodities dos anos 2000. O mesmo movimento está novamente em curso.

A inteligência artificial representa uma ruptura ainda maior do que a internet. Ela amplia a capacidade cognitiva global e acelera descobertas científicas emescala inédita. A diferença é que, desta vez, a tecnologia chegou antes da infraestrutura necessária para sustentá-la.

Data centers de grande porte consomem volumes massivos de energia e metais. Apenas em 2026, Amazon, Google, Microsoft e Meta devem investir entre US$ 650 e US$700 bilhões em infraestrutura de IA. A inteligência artificial, antes vista como “limpa”, revela-se intensamente dependente de recursos físicos.

O novo ciclo das commodities

O ouro voltou ao centro do sistema financeiro global. A redução das reservas chinesas em títulos americanos, somada ao congelamento das reservas russas, aceleroua corrida por ouro físico. Pela primeira vez em três décadas, bancos centrais detêm mais ouro do que Treasuries.

O cobre consolida-se como o metal da eletrificação. Data centers, veículos elétricos, redes de transmissão e energia renovável ampliam a demanda, enquanto a ofertacresce lentamente, com queda nos teores de minério e novos projetos que levam décadas para entrar em operação. O déficit já é estrutural.

As terras raras seguem essenciais para tecnologia, defesa e inteligência artificial, ainda fortemente concentradas na China. Nesse contexto, o Brasil emerge comoalternativa estratégica, com as segundas maiores reservas do mundo e crescente interesse americano.

A prata, por sua vez, enfrenta uma escassez física inédita. A demanda da indústria solar cresce rapidamente, enquanto a oferta permanece inelástica, agravadapelo fato de grande parte da produção ser subproduto da mineração de outros metais.

Energia: o novo gargalo da IA

A expansão da inteligência artificial está empurrando a demanda elétrica dos Estados Unidos para níveis inéditos. Empresas de tecnologia já reativam ou adquiremusinas inteiras — inclusive nucleares — para garantir suprimento. O gargalo energético tende a se tornar o principal limitador da expansão da IA.

O Brasil no centro do próximo movimento

Nesse cenário, o Brasil está entre os países mais bem posicionados para capturar essa transformação. É o maior exportador de soja, o segundo maior exportador de minério de ferro, detém grandes reservas offshore de petróleo, possui a segunda maior reserva global de terras raras, conta com uma matriz energética majoritariamente renovável e ampla disponibilidade hídrica.

Mais do que isso, o país se consolida como porta de entrada natural para o capital global que busca exposição a mercados emergentes com forte lastro em ativosfísicos.

O ciclo que se inicia não é oportunista. É estrutural e multidecenal. Compreendê-lo será o que separará quem apenas observa os movimentos da superfície daquelesque efetivamente capturam os frutos dessa nova redistribuição global de valor.

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