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Por Ricardo Lima
O neodímio sustenta cadeias industriais avaliadas em trilhões de dólares, mas continua sendo tratado pelo mercado como um insumo de baixo custo. Essencial para a produção de ímãs de alta performance usados em motores elétricos, automação industrial e equipamentos médicos, o material tem preço que não reflete o risco real de sua dependência.
A principal razão, segundo especialistas do setor, está na forte concentração da oferta global e na vulnerabilidade das cadeias de suprimento, que expõem a indústria a interrupções e oscilações bruscas de preço.
Segundo dados do U.S. Geological Survey (USGS), o mercado global de terras raras movimenta algo entre US$ 10 bilhões e US$ 15 bilhões por ano, um valor modesto quando comparado às cadeias industriais que dependem diretamente desses insumos. Para efeito de comparação, apenas o setor global de automação industrial movimenta mais de US$ 300 bilhões anuais, enquanto a indústria automotiva ultrapassa US$ 3 trilhões.
Essa assimetria ajuda a explicar por que o risco associado ao neodímio costuma ser subestimado. “O mercado olha para o preço unitário do ímã e ignora o custo sistêmico”, afirma Rodolfo Midea, especialista em importação de ímãs de neodímio.
“Quando falta, o impacto não aparece na planilha de compras, aparece na paralisação da produção“
Rodolfo Midea – Especialista
A concentração da oferta agrava esse cenário. Hoje, a China responde por cerca de 60% da produção global de terras raras e aproximadamente 90% da fabricação de ímãs de neodímio, segundo o USGS. Isso cria um mercado altamente eficiente do ponto de vista de custo, mas extremamente frágil do ponto de vista de risco.
Em momentos de tensão na cadeia, essa fragilidade se materializa rapidamente. Entre 2020 e 2022, gargalos logísticos e restrições de oferta provocaram variações superiores a 200% nos preços de determinados ímãs, enquanto indústrias altamente automatizadas enfrentaram atrasos e interrupções. Em setores como automotivo, energia e manufatura avançada, o custo de parada de uma linha pode chegar a milhões de reais por dia, superando em muito o valor do insumo.
No Brasil, o impacto é ainda mais sensível. Estimativas do setor indicam que mais de 90% dos ímãs de neodímio utilizados pela indústria brasileira são importados, o que expõe empresas não apenas à volatilidade internacional, mas também a variações cambiais e rupturas logísticas.
“O preço do neodímio parece baixo porque o mercado não precifica o risco”, diz Midea. “Quando o risco se materializa, o impacto é desproporcional. É aí que fica claro que não estamos falando de um insumo comum, mas de infraestrutura invisível da indústria.”
Para economistas industriais, a discussão sobre terras raras precisa incorporar o conceito de custo econômico ampliado, que considera o impacto da interrupção produtiva, da perda de contratos e da quebra de previsibilidade. Enquanto isso não acontecer, o mercado seguirá subestimando um dos pilares mais sensíveis da economia moderna.
Para especialistas, essa distorção na formação de preços mostra que o neodímio deixou de ser apenas um insumo industrial e passou a representar um fator estratégico para a estabilidade das cadeias produtivas globais.













