sexta-feira, 12 abril, 2024
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A exploração do ”Ouro do futuro”

Mineradoras estrangeiras já estão atentas ao potencial das terras raras no Brasil.

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Dono de uma das maiores reservas minerais do mundo, o Brasil é visto como um país com grande potencial para a exploração de terras raras, matéria-prima estratégica para o impulsionar a transição energética. Apontados como o “ouro do futuro”, os minerais raros levam esse nome por serem de difícil extração, mas podem ser encontrados com abundância no país, que fica atrás apenas da China no ranking de capacidade de extração.

Com características únicas, como alta capacidade de condução de calor e eletricidade, magnetismo ou absorção e emissão de luz, os minerais raros são essenciais para a produção de celulares e motores de carros elétricos. As terras raras também são muito utilizadas em imãs permanentes e aplicadas em grande parte das tecnologias de geração de energia verde, passando por geradores eólicos, painéis solares, além de equipamentos médicos catalisadores e aplicações na indústria aeroespacial.

Segundo dados do Serviço Geológico Americano, a China controla 61,97% da produção de terras raras e até 95% de seu refino, embora possuísse 37% das reservas internacionais desses minerais. Além disso, em razão do mercado desses elementos ser mais restrito, o Estado chinês detém o controle de praticamente toda a comercialização global.

Desconhecimento

A exploração no Brasil ainda é marcada pela falta de interesse do governo e da indústria nacional em apostarem nesses metais estratégicos de nomes pouco conhecidos. Mas o aumento da demanda global tem chamado atenção para o segmento. Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), em dois anos, o número de pedidos de pesquisa aumentou em 70%, chegando a 155 em 2022. No entanto, a produção brasileira, comparativamente com outros países, ainda é baixa. No ano passado, foram produzidas apenas 500 toneladas segundo as entidades setoriais, apesar das reservas identificadas e supostamente existentes.

Os minerais raros são encontrados na região Amazônica (parte em áreas de proteção), em Goiás, em Tocantins, em Minas Gerais, e nos litorais do Norte e do Nordeste, áreas ricas em areias monazíticas e com fosfatos de terras raras. “O problema é que se conhece muito pouco dos depósitos de terras raras no Brasil e muitos deles são definidos com base em dados limitados, que sequer são tornados públicos. Para termos certeza do potencial, bilhões de dólares serão necessários e isso não deve ocorrer num prazo menor que 10 anos”, aponta Luis Mauricio Ferraiuoli Azevedo, presidente do conselho da Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa Mineral e Mineração (ABPM).

Entre as empresas brasileiras, a exploração mais promissora é a da Serra Verde Pesquisa e Mineração (SVPM), em Minaçu (GO), graças ao capital estrangeiro. Controlada pela Denham Capital, a companhia recebeu, em janeiro, aportes de mais de US$ 150 milhões dos fundos Energy and Minerals Group e Vision Blue Resources. São sete processos na fase de concessão de lavra, conjunto de operações para aproveitar industrialmente uma jazida, que totalizam mais de 200 milhões de toneladas (reserva medida). A estimativa é que a empresa comece a lavrar ainda neste ano.

A empresa Mineração Taboca S.A também inaugurou, recentemente, o Laboratório de Hidrometalurgia do Amazonas, em parceria com o governo do estado, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas (Fapeam). O objetivo é capacitar os acadêmicos na extração dos minerais estratégicos para a produção de ligas metálicas, para atender à crescente demanda no mercado nacional e internacional.

Sobre os riscos ambientais da exploração a ANM, destaca que a mineração de terras raras é uma atividade mineral como qualquer outra, isto é, os riscos são os mesmos. “Basta a empresa concessionária seguir o estabelecido nas normas reguladoras de mineração estabelecidas pela ANM, os protocolos ambientais estabelecidos pelo órgão ambiental licenciador, que os riscos são minimizados, assim como em qualquer outra atividade. O importante é que ela seja desenvolvida de forma sustentável com respeito a todas as diretrizes técnicas e ambientais”, informa o órgão regulador, em nota.

Para Azevedo, cabe ao Brasil atrair capital, assim como foi feito com a mineração de ferro e o agronegócio. “É preciso assegurar nossa participação e atrair, inicialmente, capital, desenvolver minas e estimular a indústria a vir para cá. Nossas vantagens são enormes. Aqui podemos fazer uma indústria de base limpa (energia renovável), temos mercado consumidor e uma visão geopolítica mais equilibrada e neutra, o que é apreciado e desejado por investidores internacionais, apreensivos com o acirramento das relações de China, Rússia, e Estados Unidos”, afirma.

Outro aspecto importante dessa exploração das terras raras, segundo o presidente da ABPM, é o desenvolvimento de aplicações para uma menor dependência externa desses produtos. “Precisamos levar para as terras raras o que fizemos no Nióbio, quando deixamos de ser produtores de bens primários para colocar o produto acabado e dominar as tecnologias de aplicação. Dessa forma, será possível implantar uma cadeia industrial de terras raras no Brasil. Em resumo, é algo a ser construído e não regulado ou empacotado.”

Desafios

A extração e separação desses minerais de terras raras é complexa e demorada, um dos grandes desafios para o desenvolvimento do setor, de acordo com o professor da Universidade de São Paulo (USP) Fernando Landgraf, coordenador de um projeto de pesquisa sobre a aplicação de ímãs de terras raras na indústria.

Na avaliação do acadêmico, o Brasil já tem maturidade no campo de pesquisas, mas falta investimento para colocar em prática. “A pesquisa está bem avançada, porém, a questão é quem está disposto a investir nesse negócio. A cadeia produtiva dos ímãs de terras raras, por exemplo, tem muitas etapas. Entre mineração e fabricação passa por cerca de seis etapas”, explica Landgraf. “Uma etapa super importante é a separação, pois vários elementos são encontrados misturados com fosfato e elementos radioativos, como o urânio. A separação é o que exige maior investimento e inclui maior risco nas terras raras. Qual empresa química está disposta a investir nisso?”, questiona.

Um carro elétrico pode conter entre 9 e 11 quilos de terras raras, o dobro do encontrado num veículo a combustão, o que dá uma ideia do valor de mercado desses metais. “O neodímio, por exemplo, vem sendo usado em super ímãs, utilizados em motores elétricos especiais. Isso vem gerando uma atenção especial em cima desses elementos”, disse o pesquisador. Ele afirma que, na área energética, a utilização de elementos de terras raras é ainda maior, pois são essenciais para a geração de energia limpa. “Há uma preocupação geopolítica estratégica pelo grande controle chinês nessa extração, porque os minerais raros podem ser usados para produção de aviões militares. E, aí, o mundo vai depender da China”, ressalta o professor da USP.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, mencionou a exploração de terras raras em um Plano de Transição Ecológica, que promete ser a grande marca do governo. O Ministério de Minas e Energias (MME) também apresentou às mineradoras políticas de curto e longo prazos nesse sentido. “Estivemos com o ministro Alexandre Silveira (do MME) e ouvimos dele esse compromisso. O setor mineral tem se reunido com o ministério para ajudar na formulação dessas políticas”, diz uma fonte do setor.

Apesar dos empenhos demonstrados para a extração, Landgraf, da USP, afirma que a grande dúvida é uma questão muito particular, etapa final de fabricação a partir dessas matérias-primas, que é cara e trabalhosa. “Será que o Estado brasileiro, sejam os governos estaduais ou federal, poderia investir nesse negócio para mostrar que é possível fazer imãs no Brasil. Não é um negócio da China, é um nicho no qual há muita oportunidade. E, quem sabe, o mercado brasileiro consiga pegar, ao menos, 10% disso”, acrescenta.

Apetite estrangeiro

Mineradoras estrangeiras já estão atentas ao potencial das terras raras no Brasil. No ano passado, a canadense Canada Rare Earth Corporation anunciou planos para investir R$ 1,5 bilhão em uma planta para processar e refinar terras raras a partir do rejeito do garimpo Bom Futuro, em Ariquemes (RO). A Appia Rare Earth & Uranium Corp., também listada na bolsa canadense, firmou uma carta-acordo com a Beko Invest para adquirir até 70% de participação em um projeto de exploração de Cachoeirinha, em Goiás.

Além disso, já na etapa de produção, a montadora chinesa Build Your Dreams (BYD), que hoje é líder global de carros elétricos, já anunciou instalações em Camaçari, na Bahia, estado com abundância de minerais raros. Segundo o geólogo e advogado especialista em direito minerário, Frederico Bedran, sócio do Caputo, Bastos & Serra, o país precisa estar atento para não ficar para trás.

“Considerando o potencial que o Brasil possui desses recursos minerais, não podemos perder a janela de mercado atual, em que o país pode se beneficiar de forma significativa, exportando commodities ou até mesmo exportando produtos manufaturados, a depender da indústria e do desenvolvimento tecnológico no país”, avalia.

Para isso, Bedran afirma que as políticas de atração de investimentos devem ser contínuas, a exemplo de uma regulação adequada, com instrumentos financeiros que incentivem o financiamento do setor e o levantamento geológico de detalhe. “O fato é que não podemos deixar de aproveitar essa oportunidade única, pois a evolução tecnológica permite a substituição de uma parte desses recursos minerais, e se não explorarmos agora, continuaremos nutrindo a ideia de que o Brasil é o país do futuro, e efetivamente não chegaremos lá”, complementa.

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